domingo, 22 de março de 2009

Acho que todos que já participaram de uma quantidade razoável de provas de Audax/Randonnée foram para pelo menos uma delas crentes que, com maior ou menor dificuldade, seria apenas mais uma medalha ao final do dia, ou dias. Então, sem mais nem menos, perceberam que estavam do lado indesejado da prova: o lado de fora.

Como tudo na vida, o sucesso de um Audax sofre a ação de dois tipos de fatores: os controláveis e os não controláveis.

Chuva, vento, frio, calor são fatores não controláveis. Nunca vamos saber quando, como e com que força eles vão se combinar, então nós treinamos sob essas condições também, usamos equipamento e proteção adequados. É o máximo que podemos fazer na débil tentativa de controlar o incontrolável. Infelizmente, acabamos mesmo é tendo que reagir a eles, e para isso uma boa cabeça vale mais que excelentes músculos.

Estrada ruim ou difícil, problemas mecânicos, pneus furados, cãimbras e acidentes parecem ser, a princípio, fatores não controláveis. A princípio apenas, porque dificuldades como essas se controla de forma pró-ativa. Estudando o terreno, revisando a bicicleta, testando novidades, se alimentando corretamente e treinando, prestando atenção durante a pedalada.

Podemos sempre acusar o azar, o destino, o mecânico, o colega que pedala ao lado, ou, como muitas vezes acontece, a organização. Mas uma das características que separa os adultos das crianças é a coragem de reconhecer os próprios erros.

Saber analisar o passado, separar os fatos, interpretar os sinais e mudar de atitude; isso é uma arte. E é uma arte que só se domina com o conhecimento que uma vida plena de experiências proporciona. Não se espera isso de uma criança (apesar de algumas nos surpreenderem) da mesma forma que não se espera outra coisa de um adulto (apesar de alguns nos supreenderem).

2009 foi o ano do Kieling largar seu primeiro Audax.

Se ele tivesse apenas largado e culpado a família ou o emprego, o calor ou o vento, seria estranho. Não seria o Kieling.

Não, ele largou sabendo por quê:

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Desabafo de um pica-pau no Audax de Ijuí

Opa! Depois de 23 Audax completados de forma consecutiva e sem nenhum abandono, chegou a minha vez de voltar rebocado. Abandonar uma prova como um Audax não é vergonha para ninguém, mas as cirscunstâncias do meu abandono merecem um relato e pelo menos uns 2 anos de análise. :-)

Já que o momento é propício para filosofar, me lembrei de uma música do Legião que falava "do medo de ter medo", passei por coisa parecida quando fiquei com receio de completar o 200 de Ijuí pela falta de treinos. Então o meu medo de abandonar a prova fez com que eu tomasse algumas atitudes que fizeram com que eu abandonasse a prova. Se eu tivesse confiante em terminar a prova e não tivesse tomado essas atitudes ridículas estaria em frente ao note contando como completei mais uma prova.

Na 6a. feira resolvi trocar os meus pneus 1.5 que não furavam desde setembro de 2006 por pneus 1.0. Nada demais se tivesse feito isso uns dias antes e fosse dar umas voltas para ver como tinha ficado. É óbvio que não fiz e lá pelo km 40 do Audax o pneu traseiro começou a esvaziar, como o furo era pequeno dei umas bombadas e segui até o PC, mas é claro que já cheguei fora do tempo planejado.

Lá no PC foi constatado que a câmera tinha um problema de fabricação, ou seja, se eu tivesse ido uma vez a Colinas o problema teria sido detectado uns dias antes da prova. Com a câmera trocada segui adiante, mas 20 km depois o descer do asfalto para o acostamento peguei um buraco e furei mais uma vez o pneu.

Se alguém quer sacanear algum amigo de para ele um par de pneus 1.0!! Levei 25 minutos para trocar o raio do pneu! O detalhe é que a minha câmera furada antes do PC1 não tinha sido arrumada, ou seja, tive que colocar uma câmera furada na bicicleta e seguir adiante. Se eu arrumasse a câmera teria de esperar uns minutos para colocá-lo no pneu, pois a excessiva pressão acabaria descolando o remendo. Pensando agora, teria sido muito mais inteligente ter consertado as 2 câmeras e seguido adiante.

Consegui pedalar só 6km com aquela encrenca furada, tendo que parar uma vez por km para dar umas bombeadas! Parei mais uma vez para trocar o pneu, dessa vez para colocar a câmera que eu havia consertado lá atrás. Levei mais uns 20/25 minutos e depois de uns 3 ataques de fúria consegui trocar a encrenca.

A câmera estava um "luxo" com 3 furos, sendo 2 um do lado do outro. Entre o primeiro furo no km 70 e o segundo no km 76 foram nada mais, nada menos que 1 hora e 25 minutos, ou seja, fiz uns 4km por hora. O que já estava ruim ficou pior.

Segui adiante fazendo contas para ver que hora chegaria ao PC2, pelo meu raciocínio deveria chegar às 13:30, ou seja, no limite do tempo. Mas como o vento estava contra na primeira parte da prova e o trecho entre o PC3 e a chegada é predominantemente descida achei que iria conseguir. Nesse ponto da prova estava cerca de 30 minutos atrás do penúltimo!!!

Quando achei que tudo estava se resolvendo eis que a menos de 3km do PC2 furei de novo o pneu! Na verdade eu acho que 1 daqueles remendos mal feitos se soltou pela excessiva pressão do pneu (umas 80 libras).

Daí não tinha mais nada a ser feito, pois levaria mais uns 20 ou 25 miniutos para trocar mais uma vez aquela encrenca. Se isso não fosse bastante, eu quase não poderia parar no PC2.

Daí resolvi parar! O risco de pedalar sem estar alimentado, aliado a insegurança que aqueles pneus estavam me dando eram bem maiores que o prazer de completar mais um 200km. Resolvi ir empurrando a bicicleta até o PC, mas no caminho a van da organização me recolheu.

Era isso pessoal, se alguém chegou até aqui parabéns. Resolvi fazer esse relato / desabafo sem pensar muito (desculpem os erros), pois se fosse fazê-lo amanhã eu juro que acharia uma desculpa para o meu abandono.

Não tem desculpa, com raríssimas exceções quando alguém abandona um Audax o culpado se encontra sentado no banco da bicicleta, pena que em muitas situações como essa, a cabeça serviu apenas para colocar o capacete.

Nos vemos na pedalada de 5a.

Abraços
Kieling

4 comentários:

24 de mar de 2009 11:01:00
Anônimo disse...

Kieling... aprendi que desistir de Audax é normal. Já desisti de doi 300km e um 600km. Não dói, só no dia... Depois a gente volta mais forte para os próximos, vc vai ver.

Grande abraço e até o Audax do Vale.

Rafael

25 de mar de 2009 17:32:00
artur disse...

Mazá! encontrei uma alma gêmea hehehe! Fiz experiência muitíssimo semelhante durante minha primeira tentativa em brevet Audax. Desisti depois de um número incrível de furos e dificuldades para consertar (mesmo tendo 2 câmaras de reserva e todo o material necessário). Tem dia que Murphy vem com TUDO...

26 de out de 2009 15:45:00
Daniel disse...

Desistir faz parte do show ;-)
Melhor desistir em condições, do que levar até o fim e causar as vezes problemas para o próprio corpo.

Para mim audax 50% corpo e 50% psicológico

Abraços
Até 2010

26 de out de 2009 17:30:00
Kieling disse...

Opa! Para alguém bem treinado o psicológico é 90% do desafio. Cansei de ver gente muito bem preparada "amarelar" por causa do psicológico.

Nessa prova o meu psicológico, que sempre foi forte, se fragilizou por causa do mau preparo físico.

Psicológico fraco + físico fraco = Desistência. :-(

Abraços
Kieling

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