sábado, 19 de julho de 2008

Audax 300 Caxias - A primeira prova

A série Audax de 2004 teve histórias comuns a todas as provas, mas potencializadas por ter sido o primeiro ano do Audax no RS. Muita gente (como eu) foi para Caxias achando que seriam apenas 100km a mais do que os 200km de Porto Alegre realizado 4 semanas antes.

É óbvio que além dos 100km a mais teríamos muito mais desafios pela frente: a serra, o vento, a chuva (pouca) mas principalmente a nossa inexperiência. Se hoje são comuns sapatilhas, calças compridas, suplementos energéticos e tudo que a tecnologia nos coloca à disposição, naquela época isso eram artigos de luxo para aquele bando de pica-paus pedalando na serra. Eu pedalei de moleton com uma camiseta de algodão por baixo, desnecessário dizer que com menos de 100km eu estava encharcado pelo chuvisqueiro da madrugada.

Paralelo a minha história, os outros 79 inscritos iam vivendo cada um a sua própria experiência, alguns deles não passaram pelo PC100, onde o panelão de sopa e o calor da fogueira causaram alguns abandonos. Naquela prova era voz corrente que quem chegasse a Cambará, no km 197, completaria a prova. O problema é que na chegada a Cambará éramos "enganados" por uma placa que dava as boas-vindas a cidade pois ela escondia atrás dela uma subida, não sei se era a mais forte da prova, mas ela era inesperada para quem já havia pedalado tanto.Pórtico de chegada a Cambará com a temida subida ao fundo (foto do meu arquivo pessoal)

Dessa prova histórica o melhor relato é o que o Hélton fez, ele é enooorme mas vale a leitura:

Não ia escrever por enquanto, pois estou com o tempo apertado devido às arrumações pós banda e retorno ao (urhg!) trabalho, mas não resisti aos insistentes pedidos de relato.

Vou pular a parte da espera e das atividades iniciais, pois essas todo mundo acompanhou, e vamos direto pra largada.

Meia noite em ponto, a corneta toca e lá se vão os audaxiosos fardados, mochilados, coletados e iluminados. A largada foi numa descida, de modo que o plano inicial de mantermos o pelotão unido por questões de segurança foi obviamente por água abaixo. Coloquei uns slick emprestados que faziam a bike voar pelo asfalto, de modo que aproveitei para acompanhar o pelotão inicial e não ficar sozinho ou me perder. Subimos um pouco, passamos uns sinais vermelhos (dá licensá, né, eu sou do AUDAXXXX!!), e logo entramos na RS. Aí o ritmo ficou forte demais pra quem já tava se achando na hora de dormir, de modo que diminui um pouco para esperar meus amiguinhos, mas esses não vieram e eu segui num ritmo bom, descendo a lenha na descida, aliviando na subida, que 300 não é mole, até que passamos pela Fras-le e entramos à esquerda, havia o pessoal da organização sinalizando.

Entrei no Bairro Forqueta e segui em direção à comunidade de NS da Salete, acompanhado por alguns ciclistas que chegavam por trás (opaaa!), mas depois seguiam num ritmo meio forte que eu preferia não acompanhar. Nesse ponto, me passou o Manuel Terra, com a bolsa de selim meio solta e o pisca-pisca sacudindo muito, muito, quando ele levantava para acelerar ou subir uma lombinha. Não sei como o pisca não caiu no chão...

Nesse trecho foi que pegamos escuro total a primeira vez, e então o farol se mostrou muito útil. Confesso que desliguei ele um pouco pra ver o brilho da lua, mas liguei logo em seguida. Ainda bem, pois havia um gambá atropelado no meio da estrada, antes do primeiro PC. Lá chegando, entra água por cima, sai água por baixo, uma assinada no cartãozinho, um beijinho no chuchuzinho que já estava cansado de correr pra lá e pra cá (Michele, minha namorada e operária do pessoal da organização), saí pra estrada de novo, agora acompanhado dos meus amiguinhos Fernando e Edgardo. Seguimos o caminho inverso batendo papo, em um ritmo quase forte, junto com o Ricardo Rogério, que foi de mountain bike, e nos acompanhou bastante (se fazendo de salame e ficando pra trás para depois chegar na frente no final, hehehe).

No trecho do viaduto, vi um pessoal da minha frente atravessando intempestivamente a estrada, como se tivesse caído alguma coisa ou quebrado alguma coisa ou furado algum pneu, mas era só porque havíamos perdido a entrada do viaduto torto, sendo que assim descemos pela grama do barranco mesmo, e seguimos em frente. Nesse ponto, o pessoal ficou em dúvida se era mesmo o caminho, mas o cartão de rota e o GPS nos deram segurança para continuar num ritmo pré-quase-sub-forte, lomba acima. Esse negócio de catar e carregar papel deve ser bem cansativo, mesmo, pois ao passarmos em frente da vila de temidos papeleiros, eles estavam todos ferrados no sono, não vimos ninguém. Haviam alguns colegas que estavam com aquele farol de LEDs da Cateye, que pisca epileticamente, e é terrível andar com aquilo piscando, piscando, acho que isso
só deve ser usado de dia, pra chamar mais atenção quando a visibilidade é baixa. De noite, deixando ele ligado continuamente a gente tem sinalização e iluminação mais do que boas...

Logo em seguida, pegamos uma descida animal, muito veloz, passamos pela ponte e depois subimos, subimos, subimos, oh céus, oh vida, mas não há lomba que não se acabe, e fomos indo pelos confins do perímetro urbano de Caxias até o segundo PC, onde realmente paramos pra descansar. Nesse PC já havia comida, banana, Nutry, Frukito (quando é que a Gatorade vai colaborar? Frukito sucks!), uma divina cuca que o Oger levou (não pode correr, mas participou intensamente de todo o percurso), atendi ao chamado urgente da natureza, provocando algum atraso mínimo, e tocamos ficha, Edgardo, Fernando e eu. Dali pra frente, as coisas ficaram mais vazias, mais desertas, mais descampadas, o vento contra começou a se manifestar com maior intensidade, assim como o brilho da lua, que ofuscava completamente o brilho dos nossos faróis, que ficou bem baixo no momento em que a corrente das pilhas foi reduzida a um valor nulo, ato esse que foi perpetrado intermitentemente na maior parte do trajeto noturno (para bom entendedor...). Essa redução do fluxo elétrico intra-farol não causou prejuízo à visibilidade alheia, pois tal fluxo foi prontamente
restabelecido em todos os momentos em que outros usuários motorizados compartilhavam o mesmo trecho da via. Em algums momentos, já de saco cheio de tanto pedalar, empurramos a bike para alongar e descansar os musclinhos amassados e exigidos, o que foi muito bom. Quando olhávamos para trás, dava pra ver um ou dois faroizinhos brilhando ao longe, e nos trechos mais amplos, conseguíamos ver alguns pisca-pisca lá na frente, mas foram raros os momentos em que ultrapassamos ou fomos ultrapassados por colegas audaxiosos. Nesse trecho, já estava quase dando vontade de tirar o moleton, mas o mesmo estava encharcado de suor e se eu o tirasse e colocasse na mochila, iria congelar, de modo que assim fomos, pedalando, embalando, empurrando, parando (pouco!), até que chegamos no terceiro PC exatamente ao raiar da aurora. Esse último trecho teve velocidade entre 15 e 20 por hora, devido ao vento contra.

Ao chegar no PC3, já entrando no clima de Lajeado Grande, apeei da magrela, amarrei ela no poste perto do cocho com água, sacudi a bombacha pra tirar o sereno da madrugada, carimbei meu cartão com a prenda que estava na porta do bolicho, entrei cumprimentando os da casa e pedi um trago bem quente, no caso um café com leite. AAAAAAhhhhhh, o fogão, quentinho, quentinho, vários audaxiosos estirados nos pelegos (tá legal, não tinha pelego, era banco de madeira...), alguns já nem conseguiam ficar de pé, outros com o joelho sequelado, meio inchado, mas eu estava é a fim de um belo café da manhã: comi pão caseiro com mel, nata (Käs schmier?), geléia de fruta, pedaços de queijo da colônia e o maravilhoso e celestial café quente com leite quente com açúcar que, por sua vez, ao entrar em contato com o leite e café já quentes, ficou quente também, e ao entrar em contato com minha goela não tão quente, foi squentando o caminho por onde passou, facilitanto assim a passagem da glicose e da caseína e da cafeína e da gordura saturada para dentro de minhas artérias famintas e geladas, e aí tudo que era dor, agonia, desespero, angústia, frio, fome, cansaço e pavor (tá legal, não tinha pavor... nem desespero, pelo contrário!) transformou-se na
perspectiva de pegar um solzinho, que já estava mostrando a cara. Depois de descansar um pouco, paguei o dono da venda, que pelo maravilhoso café me cobrou míseros, infimos, pífios cinco minúsculos reais, oh que maravilha o interior.

Pessoas, não vão pra gramado, não vão para nova petrópolis, vão para são chico, lajeado grande, cambará, la descobrirão a verdadeira felicidade do turismo gaúcho, não essa palhaçada consumista enfeitada clonada capitalista predatória que tem em Gramado, por exemplo. A vida é mais que um casaco de pele e uma diária de 150 pila!
Saí do bolicho, acordei o pingo, digo, a magrela, limpei os óculos escuros até então guardados na mochila e seguimos viagem. Ansioso que estava por ver o alvorecer solar, meu amiguinho Fernando Marcarello Jr. decepcionou-se à medida que a pequena faixa de nuvem que cobria o dito alvorecer foi crescendo, subindo, se avolumando até se tornar uma massa cinzenta nublada que perdurou o dia todo... Mas pelo menos consegui tirar minha calça (fiquei de bermuda, óbvio!) e o colete, o que me deixou sentindo mais livre e feliz para pedalar. Nesse trecho, alguns carros já passavam zunindo, buzinando, praticamente dizendo "sai da frente que a estrada é minha, mesmo que tu ocupe pouco espaço e a pista contrária esteja livre, suma, desapareça, recolha-se ao acostamento de onde nunca deveria ter saído ou no qual de preferência nem deveria ter entrado!". Tudo bem, papai, perdoai-os, pois eles não sabem o quanto de pança e ateromas poderiam estar perdendo com cada sobressalto cardíaco provocado por buzinadas cretinas caso tivessem a coragem e audáxia de estar do outro lado do vidro...

Nesse trecho nem tão curto até Tainhas, alguns audaxiosos se juntaram a nós, de modo que andamos junto com eles um pedaço, algumas subidas longas e descidas também. Em uma delas dizia: declive acentuado, extensão 11 km, e eu pensei, que beleza, ONZE QUILÔMETROS de descida, mas na verdade havia uma vírgula capciosamente pequena, e portanto era apenas 1,1 km... Buáááá! De modo que chegamos em Tainhas, já com os pneus respingando água pois o chão estava molhado apesar de não estar chovendo. O vento com certeza continuava contra, o que dava a esperança de que depois da meia-volta ele estivesse a favor. Pegamos algum chuvisco nos trechos de, predominantemente, subida que levavam ao quarto PC, em Contendas, na lancheria Querência. Lá, carimbei o passaporte com a Vivi e o Iuri. Nesse PC, resolvemos dar um tempo a mais para descansar, comer, digamos que o pastel de queijo do tio (bagual pra mais de metro, grosso que nem dedo destroncado, mas gente fina pra caramba!) por um pila e o café com leite (o melhor do Audax, disparado!) por 75 cents foram uma verdadeira pechincha!

A minha teoria é a seguinte: o esforço físico da pedalada, bem como a ansiedade prévia, fazem com que haja uma ativação do sistema nervoso simpático (vasoconstrição cutânea, dilatação da pupila, aumento da pressão arterial e da frequencia cardíaca, aumento do tônus da musculatura esquelética) e inibição do parassimpático, com consequente diminuição da atividade motora da musculatura lisa existente, por exemplo, no tubo digestivo. Esse é o fator número 1. Ora, na véspera havíamos nos empanturrado na Gianella, e depois ficamos só na base de lixo industrializado leia-se Frukito (buuuu), Nutry, Malto (nada contra, mas contra café com leite é covardia!) e outras coisas ridículas. Esse é o fator número dois.

Isso explica, no meu caso: segundo PC: diarréia explosiva incontrolável. Terceiro PC: "ameaço"; quarto PC: nova diarréia explosiva incontrolável. É MUITA PORCARIA FERMENTANDO NA BUCHADA DO CARA! Dureza, relógio biológico detonado, nível de esgüalepina sanguínea elevado, tudo isso faz a panela de pressão intestinal chiar incontrolavelmente! E sei que não foi só comigo, pois quando um colega pegou o rolo de papel, o tio falou: "depois de usar, me devolve que esse já é o quarto rolo hoje!" Observação confirmada pela prática, pois tive que esperar três usarem o banheiro antes de mim, e quando saí já havia dois na fila. "Expressionante", como diz o outro!
Quando achava que iria, depois de resolvida a questão parassimpática, voltar tranquilamente pra bike, não sem antes escovar detalhadamente os dentes pela
primeira vez no sábado, o Edgardo já estava em pânico: "vamo lá cara, não dá tempo de escovar nada, temos que continuar, já passou da metade do tempo, se a gente não correr a gente não vai chegar a tempo, etc, etc" E eu pensei "mas que p***, detesto admitir que ele tem razão!" E lá fomos nós, agora, HAHÁ, a favor do vento, mas obviamente a impressão é que não existem descidas naquele trajeto, só subidas. Quando a gente dá meia-volta, a geografia se altera automaticamente e todas as descidas grandes ficam pequenas e todas as subidas grandes ficam maiores ainda! No meio do trajeto, antes de Tainhas, o Fernando teve problemas na corrente, de modo que ele ficou com o Edgardo e eu segui (com o consentimento deles), num ritmo bom até o trevo, num ritmo nem tão bom dali em diante, não sabia se valia mais a pena sentar a bota sozinho, ou esperar pelos meus amiguinhos, tentei ligar pro edgardo mas não deu, pro fernando mas não deu, e eu segui pedalando, um trecho de subida leve empurrando pra descansar as pernas, até que resolvi esperar de vez, molhado e cansado por causa do chuvisco incessante e do vento desfavorável. Lembrando que desde o trevo de Tainhas, encontrávamos, até o PC3, o pessoal que já vinha voltando, do PC3 até Tainhas, depois do descanso relativamente longo, pessoas que AINDA estavam chegando, meio sem chance de completar a prova, nem vi quem era, mas já vinham maleixos. No trecho entre Tainhas e Cambará, logo no início, uns dementes passando em pelotão, a favor do vento, voando lomba abaixo, esses devem ter feito um tempo realmente ridículo, que disposição! Bom, quando parei pra esperar, dois minutos depois já apareceram meus amiguinhos já de longe sinalizando pra subir na bike e sentar o sarrafo. Sua vontade seja feita! Lá fomos nós, comentado detalhes bioquímicos sobre como a fibra muscular, depois que as mitocôndrias consomem todo o ATP, a glicose, a fosfocreatina, o glicogênio e os ácidos graxos, combina-se com o ácido láctico e a mioglobina para formar compostos como a esgüalepina, a espatifina e a detonina, que circulam pelo parênquima muscular (alguns pesquisadores sugerem que pelo estroma também), numa reação em cadeia que transforma a actina em celulose e a miosina em isopor, dando ao músculo uma composição semelhante a um compósito de papel higiênico molhado e a substância que forma o Bob Esponja e o Lula Molusco.

Entre um delírio chuvoso, um suspiro bioquímico e um gemido ventoso pré-agônico (nada disso, é apenas onda!), encaramos a primeira subida realmente longa e certamente desanimadora rumo a cambará, onde empurramos a bike com certeza, invejando os companheiros que passavam rachando lomba abaixo a uns 50 por hora no mínimo. Nesse ponto, fomos ultrapassados pelo Paulo Bombadini, digo, Birutini, ops, BAGATINI, que vinha misteriosamente pedalando no disco do meio (será que o câmbio dianteiro estragou e ele não conseguiu colocar o disco grande?), com uma cordinha amarrando a bike dele na bike da colega dele que vinha atrás, justiça seja feita, pedalando o suficiente para que a corda não ficasse nem um pouco tensa, ou seja, nós não só ficamos nos sentindo os verdadeiros picapaus como ainda ficamos pensando na possibilidade de amarrar mais umas três bikes na bike do cara e aproveitar a força eterna que nunca se acaba...
Comentário rápido: o cara foi o tempo todo de manguinha cavada e calção, mesmo no chuvisco gelado e no trecho noturno contra o vento. Ainda por cima, conseguiu cair em um dos cinco únicos buracos em mais de 100 km de Rota do Sol... É, o cara é uma FIGURAÇA!

Seguimos felizes da vida e inocentemente em direção a cambará... Sabe aquelas cartas de tarô? uma tem um cara de poncho e gadanha escrito morte, outra uma mina com um saco de trigo dizendo fertilidade, outra uma mina pelada dizendo tentaçãol, essas coisas. Imagina uma escrito "ascensão": tem uma montanha com uma escadaria que vai serpenteando, subindo pela encosta até sumir nas nuvens, numa distância e altitude tais que já não se consegue distinguir os degraus um do outro... Agora diminua um pouco a inclinação, a altitude, o efeito dramático, tire os degraus, aumente a largura e vai ver a imagem mental que me veio ao enxergar as últimas duas lombas antes de Cambará, quando, do topo da descida, eu olhava a vaasta baixada e a serpente de asfalto que se enroscava nos morros ao longe, tão longe que nem dava pra acreditar que era a mesma estrada, ou que seria possível enxergar tantos quilômetros de estrada num único golpe d'olhos (essa foi boa, hein? acho que vou virar escritor, mas vou precisar de um revisor competente... Alguém se habilita?)

A primeira deu pra encarar, descemos de novo e outra cobra de asfalto, mas essa, a última antes de Camba, não encarei nem sonhando, empurrei logo no início. Nesse momento, eu e meus amiguinhos tivemos uma visão que valeu o Audax: mais adiante na lomba, um gato do mato preto maravilhoso com uma cauda extremamente felpuda e vigorosa atravessou a estrada pulando como se fosse um rasgo de escuridão saltitante trotante galopante recortado contra a paisagem, que saiu dum mato entrou noutro mato e ninguém mais viu! Inesquecível. Alguém já viu algum desses em alguma pracinha chique em Gramado? Hum? Empurrando empurrando, já no trecho de paralelepípedo meu parassimpático antipático começou a se manifestar novamente, e se as moitas da entrada da cidade fossem mais alta eu ficava por ali mesmo! Mas consegui me segurar e
cheguei no tal posto. Fui correndo pro banheiro e me despressurizei, depois comi bolo nutrella gotas de chocolate que é excelente maravilhoso muito maciozíssimo, tomei a porcaria do Frukito, comi meu sanduíche de Chester comprado no alojamento em Caxias (recorde de quilometragem e longevidade de um sanduíche meu!) carimbei o cartão quase batendo no Farizeu ("bah, cara, tu não carimbou o cartão no PC 6!" claro, a gente tava no PC 5, dãããã, me pegou direitinho, quase tive uma diarréia secundária!). Antes de sair, dividido entre a pressão do Edgardo (vamo lá, vai demorar?) e a pressão intra-abdominal, preferi despachar o primeiro e atender à segunda, de modo que eles foram na frente, e eu ainda troquei pilha de GPS, enchi caramanhola com malto, coloquei óleo na corrente, e segui viagem. Logo de saída, 70 km lomba abaixo só no embalo, e em seguida 15 por hora lomba acima só no sofrimento e agonia. Tirei o moleton logo em seguida, e sentei o pau (eu não falei NO pau!), fui indo, quando a energia permitia, ultrapassava alguns, quando não, era ultrapassado, alguns momentos eu sentei na beira da estrada para descansar, sem força, sem fôlego, sem ânimo, não adiantava mais tomar malto (não é mágica, senhores!). Numa dessas paradas, o piá de
Lajeado, de 14 anos, veio vindo veio vindo, acabamos andando juntos até chegar no PC 6 no café Tainhas. Recomento aos pais desse moleque pensarem bem antes de deixar ele andar acompanhado pelo Baratini, digo Birutini, digo BAGATINI, pois correm o risco de ficar um longo tempo sem ver o filho enquanto eles dão uma banda na patagônia, ou no zimbábue, ou na romênia, algum desses lugares... coisa leve.

No café Tainhas dei a penúltima carimbada (assinada), tomei uns gols d'água, revi rapidamente meus amiguinhos, e saí uns cinco minutos depois deles. Não vi mais.
Pois fui solitariamente, amaldiçoando o FDP que teve a idéia de fazer uma estrada que só tem subida, subida, uma atrás da outra, subida, subida, subida, subida, e não é como a estrada velha (rs 030) ou a faixa de Taquara (020), que as subidas são fortes, longas, mas poucas. No Xadua 300, eram nem tão fortes nem tão longas, mas desde Caxias, por todas as dúzias de quilômetros, uma atrás da outra, as malditas subidas! Nada de arrego, nada de descanso, nada de misericórdia ou compaixão, apenas subidas e subidas! A cada uma dessas malditas, o ânimo decrescia, a quilometragem aumentava, a altitude oscilava, a energia se esvanecia... Já perto da cidade, numa subida longa depois de uma ponte, me sentei no acostamento, não vinha nenhum carro, me encostei na mochila e minhas costas foram dobrando por cima do volume relativamente fofinho onde não havia nada que quebrasse, foi dobrando, esticando, alongando, relaxando, até o capacete encostar no chão, a pálpebra superior encostar na inferior, bilateralmente, e eu ir apagando, apagando, pensei que estava em casa, achei que ia abrir o olho e ver as paredes do meu quarto, a minha mãe, minha janela, minha casa, levantar, ir ao banheiro e voltar pra dormir mais um pouco, mas pensei, tem alguma coisa errada, senti coisas diferentes, ouvi coisas diferentes, abri o olho e o que vi, aos poucos, foi um céu de nuvens rápidas e pouco azul, capim ondulando, e som de veículos longe,
muito longe, se aproximando, de modo que levantei devagar, me espreguicei, me resignei, subi na magrela e fui indo em frente. NO PC6 não peguei nada exceto o cartão assinado e toquei ficha, satisfeito por não ter que passar por dentro de São
Chico, cidade onde eu, aliás, poderia comprar alguma coisa, digamos, salgada. Não me lembrava do trajeto final, que só havia feito de carro, de modo que urrava mentalmente de desânimo cada vez que enxergava as malditas lombas. Embalava na descida, mas lutava contra o cérebro para empurrar as pernas a pelo menos 10 por hora, que era o que o GPS dizia que eu deveria fazer para conseguir chegar a tempo. Cada descida era um sprint, cada subida, uma luta. Depois da gigantesca baixada que tem ao redor da barragem do salto, subi desanimadamente a lomba do outro lado, e segui lutando, pensando apenas em manter média pra chegar a tempo (o GPS é insuperável para dar essa estimativa), o horário previsto de chegada oscilando entre o possível e o impossível, minha glicemia e natremia flutuando entre o fisiológico e o patológico, eu imaginando carne, clube social, bisnaguinhas, comida chinesa, olhando para as hortênsias e imaginando que gosto teriam, olhando pro chão e pensando se as pedras não conteriam um elevado teor de sódio, olhando pras cascas de pinhão na estrada e tecendo considerações a respeito de seu valor calórico ou nutricional, pensando em pedir auxílio a qualquer transeunte, já que naquela estrada ridícula, além de um pedágio extorsivo, não há nada a não ser listras brancas, olhos de gato, grama e hortênsias. Quando meu sonho se materializou, não tive coragem, e o superego ainda conseguiu falar mais alto (o id e o ego já estavam desmaiados): uma moça passou do outro lado da estrada, carregando uma sacola de super. Pensei muito seriamente em propor que ela me vendesse alguma coisa qualquer para comer, mesmo que fosse bacon cru ou algo pior, por algo em torno do quíntuplo do valor que ela havia pago, mas pensei que faltava pouco pro pedágio, que sabe lá fosse melhor. Quando de repente, o milagre aconteceu: vi pinhões na estrada, no meio do asfalto, não estavam esmagados nem dada, pinhões inteirinhos, com aspecto ótimo. Pensei "pinhão cru, lá vamos nós" Mas para minha surpresa, estavam COZIDOS EM ÁGUA E SAL! QUATRO PINHÕES MARAVILHOSOS, FORA DE ÉPOCA, COZIDOS SOBRE A ESTADA ESPERANDO POR MIM! Que coisa impressionante. Logo em seguida, imediatamente após eu ter encontrado um saco plástico com mais pinhões de onde os anteriores haviam saído, outro participante chegou e perguntou como eu estava. Eu disse "tava azul de fome, mas graças a Deus, olha, achei esses pinhões atirados na estrada, dentro desse plástico velho de origem duvidosa e condições de higiene absolutamente desconhecidas! Não é ótimo?" Quando ele
disse: "não come isso, tá louco, toca isso fora! tu quer coisa salgada, né, então toma aqui" Foi quando o milagre REALMENTE aconteceu: o cara puxou dois maços de Club Social Integral maravilhoso sagrado divino, os quais devorei como se fossem os últimos e únicos, engoli mesmo com muita vontade, dando risada e pedalando, me despedindo alegremente do sujeito que já se mandava na frente, dizendo que me aguardava na chegada, Deus o abençoe (isso que sou agnóstico, pero que las hay...). Dali em diante a cena mudou radicalmente. Aumentei a média pra chegar no Pedágio, troquei a pilha do Gepeto que já estava apagado, e a do Farol pra garantir, coloquei o colete e disse: chego antes das sete! E cheguei mesmo. Tive algumas subidas ainda meio amargas (o cara do pedágio disse que tinha poucas, o sacana!), e uns carros tentaram me assassinar ao entrar nas rótulas da cidade sem olhar pros lados (que mancos domingueiros, que trânsito podre aquela cidade, imagina Gramado, bleargh), em dúvida se era pra cá ou pra lá, procurando as tais placas da Chocofest (não encontrei nenhuma, de modo que fui no perguntômetro), até que um camarada me disse - vai por lá e dobra. Fui, dobrei e acabou o tal Audax!

Beleza, o resto é comida, espera, guarda bike, apaga em Caxias, acende na Bikesul (não vi nada nesse meio-termo), e no outro dia roncar, comer, como é bom minha casa, etc, vide excelentes micro-comentários apropriadíssimos do Faccin alguns emeios atrás.

Helton

1 comentários:

26 de jul de 2008 23:29:00
Clandestino disse...

Só me restou ler esse relato e ficar invejoso das coisas q conteceram.A essa hora ao invés de estar digitando ,estaria pedalando,sei lá por onde,mas uma coisa é certa,os locais continuam lá nos mesmos lugares.

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