quinta-feira, 5 de junho de 2008

Audax 300 SCS - Frio, queda e solidariedade

O Omar Torriani é membro do grupo do nosso grupo de ciclismo e veterano de muitas provas de Audax, mas dessa vez ele não chegou ao fim, pois o "Zorro" tirou-o da prova. Abaixo o seu relato, enviado ao AudaxBR e Pedalajeado, onde conta como foi pedalar os 150 km até sua queda, como foi resgatado pelo Faccin e como os seus parceiros de pedalada abandonaram a prova para ficar ao seu lado.

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Infelizmente somente hoje pude achar tempo para escrever e me manifestar sobre o Audax 300 de Santa Cruz do Sul. Para quem não sabe, eu caí por causa do nosso amigo Zorro!
Nunca tive problemas com cachorro, mesmo o Zorro. Aliás, nem sabia direito onde era seu habitat. Foi o Audax mais frio que já fiz e há mais de 4 anos que pratico Audax. Estava tudo formidável, a organização e até mesmo o frio. Acho que Audax sem algo diferente não tem graça. Tem que ter alguma coisa para contar, senão, fica naquele, "larguemo, pedalemo e cheguemo"! Dos últimos anos, este é o que menos pedalei e me preparei. Fui mais por causa dos parceiros Zappe e Guaraci, que pelos quais dou um dedo para pedalar com eles. Fui com o intuito de fazer "na manha", como recomendou o Zappe.
Vamos vazer para chegar e acho que seria mais um desafio para mim que sempre gostei de andar mais rápido, conter o ímpeto de sair "fedendo". Todos agasalhados, com exceção do Bagatini (segunda eu estava lá no Jeremias em Caxias e 2 caras que não participaram do Audax comentavam sobre os trajes do Bagatini- o homem tá cada vez mais famoso). Largamos e foi tudo bem, parecia que estávamos com as roupas certas, pois com o vento ao andar, não aumentava o frio pois o exercício nos aquecia e contrabalançava. O problema foi na subida da serrinha, logo na largada, que nos fez suar em bicas e encharcar as roupas por dentro. Depois na descida já deu para ver o que seria. Com a madrugada o frio aumentou e, à cada parada a luta era para se re-hidratar e alimentar sem esfriar o corpo, pois a retomada era triste. As luvas depois de molhadas por dentro e por fora, não aqueciam mais. Mas tudo era administrável, com exceção das descidas que, quanto mais íngremes, mais frio provocavam e o bater de queixo era inevitável. Às vezes a gente gritava: Uhhhhuuuhhhuuuhhuuuuuu! Ou, Ai, ai, aiiiiiiii fia da puuuuuuu.... O fato é que ajudava e aliviava a dor que causava no rosto, pescoço, pés, etc. A partir das 4 e meia da manhã o grito também ajudava a espantar o sono. Uma coisa interessante que o frio provocou é que desde o início o nosso grupo saiu bem mais quieto que o habitual. Normalmente as primeiras 2 horas é de brincadeiras, piadas e galinhagem, desta vez, no trevo da RS, já estávamos calados e o silêncio tomou conta. Assim permanecemos pela maior parte das 8 horas e meia que pedalamos, com exceção de alguns momentos que algum de nós se lembrava de algo e comentava e os outros riam, diziam alguma coisa e logo voltávamos ao transe de pedalar e se encolher com o frio e se refugiar nos
pensamentos para aplacar o cansaço, a dor e o frio.
A organização e presença do Faccin, o tempo todo, apoiando e protegendo, como sempre, foi fora de série. Até escolta contra o cachorra mardito ele fez na ida. Quando passamos pelo Zorro, o Faccin estava esperando na encruzilhada. Ao passarmos ele veio por trás, com os faróis altos e assim que vi o mardito arremeter e surgir desgraçadamente das macegas, esprintei e escapei e o Faccin meteu o carro por cima dele, pena que não o atropelou.

Fomos bem até São Jerônio, 100km percorridos em quase 5 horas, uma boa média com todas as paradas. Isto nos colocava dentro do nosso plano de corrida. Mas agora tinha um trecho de retorno em sairíamos da beira do rio e subiríamos de volta para uma cota mais alta. Não é significativa, mas tira o impulso e a pedalada não rende. Assim como sentido contrário a gente manda vê e acha que é o tal, na volta a coisa pesa mais e, além disso, estava muito mais frio e não haveria PC no meio, sendo o tirão de 86 km.
Assim zarpamos do Jóquei Clube de São Jerônimo às quatro e pouco da manhã. Saímos entreverados num pelotão de uns 8 ciclistas incluindo nós. O Zappe mandou vê e resolveu puxar o pelotão. Fui no vácuo, administrando para não me desgastar. Senti que o ritmo estava puxado demais e avisei aos 2 que se quisessem seguir assim que fossem, pois precisava me poupar para os 200km que ainda restavam. Pois foi deixá-los se afastar lá pela ponte do Jacuí e eles pararem no primeiro posto de Gasolina. Depois disso nunca mais se aproximaram. Achamos estranho aquilo e foi bom segurar o ímpeto para não nos desgastarmos. Fomos bem até o cubo dianteiro do Zappe começar a
roncar. Paramos várias vezes para verificar, pois parecia que nos baixios, com o frio, o barulho aumentava. Já tinha uma estratégia para caso de a roda roncar de vez: o Zappe ficaria e eu e o Guaraci seguiríamos até o PC com a roda estragada e avisaríamos para trocarem a roda e traríamos de volta. Só que no meio do caminho um de nós pararia e esperaria até o outro voltar e trazer. Assim, os dois fariam 2 vezes somente metade do percurso a mais e resgataríamos o Zappe. Mas, no fim, não precisamos.
É interessante como é crítica a chegada no Pesque-pague: a ânsia por chegar é enorme e à noite a imprecisão das leituras de instrumentos e até da localização nos prega peças e no final sempre tem umagrande subida antes do PC. Desta vez o pior é que tinha um ciclista uns 800m à nossa frente e sempre víamos que ele não parava e seguia, o que significava que a estrada continuava. As luzes ficaram tapadas pelas árvores, de sorte que só poderíamos saber que estávamos ali uns 100m antes. Chegamos ao PC eram umas 5 horas da madrugada e fizemos uma parada para meter um frukito, barra de cereal, umas mariolas e zarpar.
Saímos de lá na euforia de que faltavam apenas uns 40 km até o café da manhã e no máximo 2 horas de escuridão e frio. Mas tinha antes a descida logo após o PC e com o corpo frio foi mais tremedeira, bate-queixo e gritos: fia da puuuuuu!!!! De obstáculo pela frente teríamos apenas a serrinha de Vale Verde, que deste lado é mais curta, mas mais íngrime. O negócio seria chamar a coroinha e subir devagar e sempre. A vantagem é que não teria o sol inclemente das provas de 200km que a gente passa por ali pelo meio-dia e o sol rachando o capacete.
Seguimos em marcha-batida, devorando as coxilhas e cortando a cerração, apenas despertados de nosso transe pedalístico por algum ônibus que desafiava a madrugada e o frio. Eu nem me lembrava mais do Zorro, o maledeto cachorro que nos incomodou na vinda, estava um pouco cansado e a dor que tinha na coxa direita tinha aliviado. Da
mesma forma a dor que sentia nos pulsos passara. Estava administrando a corrida e daria para levá-la a bom termo. O sono começava a pegar, cheguei a temer uma dormida na bike. Mas puxava conversa com os guris e mandava pedal.
Lá pelas tantas o sol começou a se pronunciar, quebrando a cerração e a geada, meio preguiçoso, mas dava sinais de vida. Estávamos eufóricos que o pior já tinha passado e que agora era só administrar o resto. Os faróis já nem mais faziam efeito e nem se arriscavam a brigar com o poder do rei sol que não aparecia, mas começava a anunciar-se por meio dos reflexos no firmamento. Longe no horizonte, ainda se via algumas estrelas teimosas que queriam apreciar o alvorecer e a geada, bem como a lua crescente que nos acompanhou por algumas horas pela direita.

Nossa euforia durou pouco e nos calamos novamente, afundei em meus pensamentos e mantive o ritmo das pedaladas, só pensava no café quente que me esperava há uns 30km dali. Eis que o silêncio é quebrado por um grito de pavor:
- Olha ali o cachorro! Grito o Guaraci.
Nesse ínterim só pude ver a fera me atacando pelo lado esquerda, latindo e rosnando fortemente. A imagem que tenho em minha cabeça é aquelas fotos que se tira em movimento em que somente o objeto central está focado, todo o resto está tremido e fora do foco. Parece que tudo foi tão rápido que só gravei aquela foto. Lembro de
me esgueirar para o lado para livrar minhas pernas de suas presas assassinas afiadas.
A imagem seguinte foi o Zappe me dizendo que a gancheira do câmbio estava quebrada e me pedindo a chave para cortar a corrente e emendar numa marcha para tirarmos o câmbio e pedalar assim até o PC.
Aí comecei a falar coisas tipo:
- Eu acho que tá aí no bagageiro...
- Vamo Omar, pega logo! Disse o Guaraci
- Mas essa não é a minha bicicleta, esse não é o meu farol...
- Omar, tu tá bem? Tu viu que tu caiu?
- Eu caí? Eu durmi?
- Não, o cachorro avançou e tu caiu?
- Eu caí?
- Tu tá bem cara?
- Como é o teu nome?
- Omar!
Como é o nome da tua mulher?
- Bea.
- Qual é a marca da tua bici?
- Specialized?
- Mas eu caí?
- É cara tu não viu o cachorro?
- Eu dormi!?

Naquele momento os dois se olharam e se assustaram, eu já estava numa tremedeira de frio. Eles me levaram para uma parada de ônibus e puxaram os cobertores térmicos de emergência e me enrolaram nele. Aí que viram que meu capacete tinha uma fenda enorme no lado direito, na altura da orelha. Por dentro ele também estava todo comprometido.
Nesse momento chegou o Rigone e seu pelotão e chamaram o resgate. Eles aguardaram o resgate e me despacharam. Fi-los prometer que iam terminar a prova e que iam me dar as medalhas, mas os 2 dois sem-vergonha deram um pau até o PC, tomaram um café, avisaram da desistência de todos e seguiram para a Unisc para pegar o carro e
depois ir para o Hospital. Eu estava bem, não sentia nada, somente um pouco no cotovelo direito. Foi o tombo mais indolor que já tivera. Tanto, que ainda fomos resgatar um outro cara mais adiante, que estava com dor no pé. Ele veio o tempo todo reclamando da vergonha de desistir e o fato de que prometera a medalha para a
filha. Eu acho que vergonha é a gente não tentar ou tentar sem preparo e experiência. Saber o limite e desistir antes do pior é inteligência e autoconhecimento. Só não falei isso para ele porque estava com tanto sono que não tinha vontade de falar nada. Respondi em monossílabos às perguntas dos dois. Chegamos finalmente ao Hospital e eu tremia feito vara verde. Ficaram apavorados com a minha tremedeira e a roupa molhada. Tirei as roupas de cima e me colocaram sobre os lençóis térmicos que trouxera junto dois acolchoados. A enfermeira não achava a minha veia na dobra e me enfiou uma agulha quase na altura do pulso. Deram- me um soro aquecido para me re-hidratar e aquecer. Bem que o Faccin poderia fornecer um sorinho para a gente levar pendurado na bike. Hidratação direta na veia, jóia. Acho que vou adaptar um gancho naminha bike. Será que pode?
Enquanto o médico examinava minha cabeça, olhos e reações a enfermeira Eliana falava comigo:
- Mas o que vocês andam fazendo com essa friagem? Expliquei tudo e ela disse que tinha um cunhado que também gostava dessas
loucuragens. Perguntei se ele era de Santa Cruz e ela disse que não, era de Bento. Perguntei o nome dele e ela me disse: Walter Migowski. Impressionado disse que ele era meu primo, na verdade casado com a Denise, minha prima.
Bom, para encurtar a história, tomei meio litro de soro quentinho, me aqueci. Dormi um pouco, porque eles me acordavam a casa 15 minutos, para ver se eu não tinha tido nenhum chilique. Depois de ver que eu estava bem o médico me liberou, pois nem galo ou dor de cabeça eu tive.
O velho Faccin ficou comigo o tempo todo e me deu um baita apoio. Foi genial. Não me surpreendeu, pois já conheço a hospitalidade e jeito especial de nos tratar da Família Faccin e quando estou num evento organizado por eles, sei que posso pedalar tranqüilo por que eles fazem de tudo para que tudo dê certo.

Quero mencionar também a eficácia do capacete da marca Bell. Excelente. Estava com ele bem preso à cabeça. Os tirantes são fortes e não se rompem facilmente. O capacete rachou, mostrando que ele absorveu totalmente o impacto, sem deixar qualquer seqüela física em minha cabeça. Se tive um apagão de memória foi pela desaceleração, mas nem perdi os sentidos. Não tive dor de cabeça depois e estou ótimo. No outro dia não parecia que tinha sofrido uma queda a não ser pelo cotovelo e o ombro que me doíam um pouco. Nem lembrei de tomar um relaxante muscular ou anti-inflamatório. Gostaria de mencionar também a atitude de companheirismo dos meus 2 baita parceiros: o Zappe e o Guaraci. Agente costuma brincar sobre o que separa os homens dos guris, mas a gente tem que saber com que a gente pode arriscar o couro e esses dois são o tipo de caras que se me convidarem para ir para o inferno eu vou, pois sei que na hora do aperto e precisar, não precisarei nem dizer nada, porque ali do lado estará a mão forte e inarredável de amigos de sangue.

Por isso, galera, se quiserem fazer o 300 de Caxias, é só me chama
que a bike já está quase pronta, pois eu já estou prontinho pra
outra indiada!

Valeu Zappe e Guaraci! Faccin e Cia., Audaxiosos que manifestaram
sua solidariedade e aos médicos e enfermeiras do Hospital de Santa
Cruz o meu muito obrigado pelo carinho e colo.
E ao Zorro e seu irresponsável dono que se prepare, porque não
pretendo descontar no pobre animal, mas pretendo fazer seu dono
nunca mais esquecer o que é responsabilidade. O Dr. Guaraci já tem
minha procuração!

PS : Ao cair estava com 152km pedalados e há 8:32h

Abraços

Omar Torriani

2 comentários:

5 de jun de 2008 23:36:00
Anônimo disse...

Olà,

Fui emocionado ao ler o que você escreveu sobre a tua queda e sobretudo a solidariedade dos dois companheiros teus, ao Faccin e a todos que te ajudaram. Não tenho as palavras para descrever minha emoção. Isso é o verdadeiro espiríto AUDAX...

D.

6 de jun de 2008 20:43:00
Kieling disse...

Nas várias provas em que participei vi de quase tudo. Vi gente sendo rebocada, vi ciclista carregando a bicicleta estragada do companheiro até o PC enquanto esse vinha de carona numa outra bike, vi gente voltando mais de 40 km só para ajudar conhecidos que estavam atrasados, vi gente "botando a prova fora" só para ficar com amigos que não conseguiriam chegar a tempo...

Isso é o Audax.

Kieling

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