quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Relatos PBP - Erich Brack

PARIS BREST PARIS 2007

Por Erich Brack - 3272

INTRODUÇÃO
Iniciar-se no ramo do ciclo turismo com os Audaxes foi muito importante para mim. Melhorou muito a qualidade do meu lazer e minhas condições de saúde, e devo isto ao meu grande incentivador e companheiro de pedaladas Luís M. Faccin, que lançou a idéia do meu primeiro Audax 200, ainda em 2004, e, posteriormente fomos cúmplices até o fim do PBP 2007!
Este entrosamento entre os participantes é fundamental para o sucesso, já que evita erros grosseiros, no que também fomos muito auxiliados por nosso grande amigo Jorge, o português/brasileiro que já estava no quinto PBP! Já que estamos agradecendo, também não podemos esquecer do nosso grande Carlos Kieling, pelo seu magnífico blog, que metabolizava as nossas informações, enfim todos aqueles que de alguma forma ajudaram, Marcelo Lucca e demais amigos, torcedores e familiares!

PREPARAÇÃO
O desafio é enorme! Por isto é necessário preparar-se com bastante antecedência e se concentrar diariamente no assunto, pensar em como realizar a prova todos os dias e ir se convencendo de que chegará o grande dia!
Pensar no que é necessário para melhorar o nosso desempenho? Muitas coisas!
É necessário ir montando uma estratégia e posteriormente ir executando as tarefas progressivamente. O desafio inclui o físico, o psicológico, alimentar e suporte (bicicleta). Eu me preparei progressivamente no período de dois anos.
Montei minha estratégia em reduzir o peso ao máximo, o que culminou com a compra da bicicleta Scotch CR1, leve e com muito conforto devido à elasticidade proporcionado pela fibra de carbono, que não é tão rígida como o alumínio, reduzindo as trepidações produzidas.
Devemos discutir o assunto com parceiros, amigos, ciclistas mais experientes e ir planejando sua estratégia pessoal, adequada para você. Não há uma conduta padrão, como por exemplo, os vários tipos de bicicleta encontrados, speed (maioria), MTB, tandens, reclinadas, carenadas, triciclos, e alguns modelos que nem sei como caracterizar, pois se moviam com uma mistura de remada e pedalada em dupla.
Particularmente me surpreendi pela agilidade das tandens! Havia um casal tão veloz, sendo a parceira até um pouco “gordinha”, que não consegui acompanhar por muito tempo, mesmo estando no “vácuo”, tendo que esperar a próxima tandem passar. Acho que se tiver parceiro fixo, é uma boa opção para este tipo de ciclismo, pois é muito eficiente!
Alimentar: programar sua nutrição, encontrar seu peso ideal, suplementação nutricional no período pré e durante o período da prova. Que alimentos devemos ingerir? Energéticos, barra de cereais, técnicas de hidratação, etc.
Quanto aos cuidados físicos, depende muito do que gostaríamos de fazer. Ser um atleta bastante ágil e realizar a prova como os primeiros, em 42 h. ou mais lentamente, e apreciando os momentos que a jornada oferece! Uma boa forma física sempre ajuda, entretanto, treinar para nós gaúchos aqui do sul, nem sempre as condições meteorológicas são favoráveis aqui, em pleno inverno, no período que antecede a prova. Particularmente este inverno, foi o mais rigoroso dos últimos 19 anos. Pedalar em academia não me anima muito e no único dia que fui à academia, enquanto pedalava, surgiu o noticiário com acidente aéreo em São Paulo, com avião da companhia por nós escolhida (TAM) para nosso transporte até São Paulo. Não consegui retornar a academia!
Quanto ao psicológico, imaginar as suas atitudes, pensar que haverá muitas vezes o pensamento em desistir frente às dificuldades inesperadas, vencer o sono, e considero que tempo dormido não é perdido. (Havia a recomendação do Jorge, de que quem dorme em Loudéac, não chega a tempo, mas encontramo-nos justamente na fila do dormitório em Loudéac na primeira noite, pela meia noite, onde dormimos até as 3h.!) O esforço é extremo e algumas horas de sono por noite são muito importantes. É necessário ter a cuca fresca para poder improvisar frente às dificuldades surgidas, ter sangue frio para improvisar e raciocinar!
Quanto ao suporte/bicicleta, deve ser uma bicicleta que se está acostumado e já ter pedalado no mínimo uma prova de 400 e 600 km com a mesma. Não utilizar equipamentos não utilizados previamente!
Lembrar que é uma prova longa, e não utilizar materiais que estão com vida útil avançada, pois como a prova é dura, provavelmente estas peças não resistirão como foi com os pneus. Já estava na dúvida quanto aos mesmos antes da largada, comentei com o Jorge, e pneu um pouco gasto já é um pouco mais leve! Errado. Tive de trocar o mesmo, bem como as balacas dianteiras e traseiras tiveram de ser trocadas devido ao desgaste excessivo causado pelo mau tempo apresentado. A câmara remendada vazou no remendo, usar nova! Por sorte a corrente havia trocado!
Este aspecto é bastante cômico, pois eu havia justamente criticado meu parceiro de quarto, Juan, que de MTB, levava um pneu novo para eventual troca. Comentava que deveria levar apenas o estritamente necessário e no final eu que tive que trocar o já desgastado pneu!

A VIAGEM
Escolher de preferência vôos diretos, menor quantidade possível de escalas, pois reduz a possibilidade de extravio de bagagens, como aconteceu com César e o Faccin, que tiveram bicicletas extraviadas, além das malas da Elvira (esposa do Lazzari), e do Lacerda, nosso apoio, aparentemente na escala em Milão!
Levar pouca bagagem! Deve-se selecionar tudo o que se achar necessário e antes de colocar na mala, tirar a metade do que havíamos escolhido! Tivemos dificuldade com chegada no domingo, pois algumas estações (particulares) do metro funcionam apenas como desembarque e não permitindo conexão em outra linha desta estação, os táxis são bastante mais caros, no domingo, e devem muitas vezes ser reservados com antecedência! Em Plaisir, sede da nossa concentração, juntamente com grande quantidade de canadenses, havia apenas dois táxis disponíveis para toda a população!
Programar para chegar alguns dias antes, para adaptar-se ao novo fuso horário, adequar nosso intestino aos novos alimentos, principalmente as saladas e frutas cruas, pois ocasionalmente pode haver um desequilíbrio da flora bacteriana levando às fortes diarréias e impossibilita a realização da prova devido à elevada perda de líquidos causada, associada à perda gerada pelo exercício físico (transpiração).
Não esquecer de levar um adaptador elétrico para as tomadas européias que são diferentes das padronizadas por aqui (carregar celular, máquina fotográfica, etc), bem como realizar a transferência do celular para possibilitar chamadas no exterior, se for optado pela comodidade. Usamos muito o serviço de mensagens, e que tem um preço acessível.

- PARIS, ENFIM CHEGAMOS!
Estes dias iniciais de descanso e adaptação à nova realidade, aos costumes, à língua, aos hábitos, ao trânsito e ser respeitado como ciclista. Chegar ao centro de Paris pedalando, dá uma segurança muito grande, de domínio do terreno, de civilidade. Foi uma experiência muito boa, sendo oferecida pelo Kardel, que já conhecia o trajeto! Cuidado apenas em trafegar em túneis e auto-estradas com velocidade máxima de 110 km/h onde é proibido o tráfego de bicicletas! Em duas ocasiões fomos escoltados pela polícia e com muita conversa conseguimos evitar as multas!
Aproveitar um pouco as delícias que esta cidade oferece é fundamental! Visitamos Torre Eifel, Notre Dame, caminhamos pelas margens do Rio Sena, museu do Louvre, Trocadeiro, Champs Eliseé e Arco do Triunfo e o inesquecível Cartier Latin com seus bares, restaurantes e universidades.

AJUSTES FINAIS, RECONHECIMENTO DO TERRENO E METEOROLOGIA
Inicialmente após mantido o contato com o terreno, inteirar-se sobre as condições meteorológicas, adequa-se a estratégia final para a prova. Haverá carro de apoio? Qual será a função do mesmo? Será de uso individual ou coletivo, haverá alguma comunicação, por internet, celular entre o nosso grupo? Pedalaremos em grupo? Inicialmente o Jorge estranhou minha colocação que provavelmente o melhor seria irmos todos por si só, já que muitos sequer se conheciam previamente de outras pedaladas.
Os últimos ajustes devem ser particularizados especificamente com relação à previsão do tempo. Escolher os trajes adequados, para o caso de dias frios e chuvosos. É verão e nos foi recomendado previamente ao uso de manguitos e pernitos, apenas a noite, e bermudas de dia, não esquecendo o uso de foto protetor! Houve grande alteração das condições do tempo, chovendo praticamente três dias, muito frio e ventos previstos de 60 km/h na região de Brest que fica perto do conhecido mar do Norte! Esta sensação de umidade foi exacerbada devido o fato de as roupas não secarem facilmente! Lembrar que no hotel utilizava-mos o abajur para secagem das meias e cuecas.....por isto houveram tantos abandonos, sendo considerado o PBP mais difícil por um veterano de 8 PBPs.
Utilizei minha capa de chuva forrada com algodão por muita sorte, pois pretendia comprar uma de goretex, na última hora, e em não aceitando meu cartão crédito, tive de usar a capa antiga, pesada, e não desejada, mas foi muita sorte, pois aquecia bastante alem de proteger da chuva, mas no último dia era difícil de acomodar sob o selim. Também utilizei o cobre botas, levado a Europa por acaso, apenas para proteger o cambio da bike, dentro do mala bike!
Deve se ter o cuidado de usar assento largo, macio, bermudas já bastante velhas, lenços umedecidos para higiene íntima, bem como uso de “Dermodex Prevent”, diretamente na pele, o que evitou as terríveis assaduras. A higiene é fundamental para evitar estas lesões freqüentes do períneo!
Particularmente arrisquei muito, pois saí com dúvidas em relação ao selim, levei dois de casa, mais uma capa de gel, e por fim comprei um selim da Selle Itália bem comum (24,9 Euros) e o utilizei magnificamente por toda a prova!
Muito importante é o ajuste do guidon que deve ser generosamente amolecido com espuma grossa! Tive importantes alterações neurosensoriais nas duas mãos por ter acreditado no uso de gel no guidon e ter pedalado muito de pé, o que não estava acostumado, forçando demasiadamente os punhos, que me causou uma bela síndrome do túnel do carpo, já pelos 800 km de trajeto e que dificultou inclusive as trocas de câmara de ar, achar objetos dentro dos bolsos, ou tirar uma simples fotografia, já que o dedo indicador, entre outros, completamente anestesiado, não identificava o botão do disparador, situação que persiste já um mês após o término da prova, apesar do uso de medicação antiinflamatória e corticosteróide!
Não esquecer do uso profilático de antiinflamatórios (Profenid) e de alongar-se antes, durante e nos finais de percurso!
Últimos ajustes nas pressões pneus, regulagens altura selim, lubrificações.
Se houver carro de apoio, preparar-se para tal! Levar roupas para trocar, sacos de plástico (organizar objetos e p/ lixo), papel jornal, separei previamente em embalagens individuais para cada ponto de parada do carro de apoio, os alimentos que levei comigo, na camisa, como: maltodextrina, castanhas do pará, power gel, uva passa e tâmaras.

VISTORIA, O GRANDE DIA ESTÁ CHEGANDO
Aos poucos a cidade vai se enchendo de ciclistas, estávamos a 10 km de Saint Quentim, e vamos observando a transformação da cidade, algo diferente no ar! Os restaurantes e bares mais cheios, a circulação do trânsito vai sendo alterada, mais “velos” circulando, presença de sinalização provisória do trânsito.
O complexo do estádio vai ficando com mais movimento, mais pessoas indo reconhecer o estádio e se agrupando para tirar fotos das delegações em frente ao Estádio dos Direitos do Homem.
Roupas coloridas, bicicletas todas equipadas, marcas desconhecidas, algumas bastante exóticas, línguas estranhas, tipos estranhos, etc.
No interior do ginásio, grande movimentação, stands individualizados por paises na conferência dos documentos, entrega do cartão magnético e caderneta de rota, sendo a vistoria suspensa devido ao mau tempo e grande número de inscrições. Havia sido transferida para momentos antes da largada, já dentro do “brete” da largada.
Outros stands de provas como o Londres Edinburg Londres, FFCT, lojas de material ciclístico, fotográfico, etc.
É proibido pisar na grama do estádio e fazer xixi na “natureza”!

A LARGADA, QUE EMOÇÃO!
É muita emoção, apreensão, ansiedade!
Enfim o grande dia chegou! Antes de sair do Pavillon de los Gatines, faz se a foto oficial do grupo dos brasileiros, que incluem Juan, Adriana, Guilherme, Calvete, Lazzari, Ricardo, Luis, César, Klaus, Erich, Ricardo e Richard, Costa, com os apoiadores Lacerda e Denis!
No rumo do estádio, deixamos para traz o Guilherme e Adriana, Lazzari e Calvete que também se atrasaram. É impossível manter o grupo unido sequer na largada! Sair todos juntos, quanta ilusão! Pedalar juntos então?
Surgiu à janta, nos dividimos em dois grupos, um janta e outro cuida das bicicletas, estacionadas junto ao portão de entrada do estádio. A fila do restaurante é enorme, ficamos mais de hora na fila. Logo ao sair o segundo grupo para jantar, abrem-se os portões, estou eu a cuidar de três bicicletas (acho que do Formiga, Klaus e Ricardo) além da minha e com toda aquela multidão em torno, vamos adentrando no estádio, os parceiros não retornam, vou acomodando as bicicletas como consigo, ainda lembro de colocar a do Formiga, no alto de um muro para sobresair-se por cima da multidão, está escurecendo, mas parece que as luzes do estádio não se ascenderão, ainda encontro o Juan que foi buscar mais algumas bicicletas, mas entrou rapidamente no WC, não respondendo aonde estavam as demais bikes. Era como um formigueiro espalhado no chão, chega à hora da vistoria, consigo passar com a camisa do Rigonax e faixas refletivas costuradas na camisa, sem colete após alguma insistência, o coração vai batendo mais forte, os parceiros não chegam. Passamos o segundo brete onde é carimbado o passaporte no grupo das 21h30minh., vou ficando por último na esperança de achar mais alguém! Fecha-se a faixa imediatamente atrás de mim como último daquele pelotão! Ninguém aparece dos parceiros. A emoção é grande, o locutor vai falando aquele francês que não entendia nada, fogos, largada das bicicletas especiais já havia acontecido as 21 h, troco minha camisa e coloco o casaco forrado, que estava amarrado na cintura, cobre botas, me ajeito e logo começa a contagem regressiva! É muita emoção, o pelotão vai partindo lentamente e silenciosamente sob os aplausos do público francês, que nos acompanharão incansavelmente por quase todo aquele enorme trajeto. Vou pedalando mais rapidamente, procurando por mais alguém, enfim seja o que Deus quiser. Estava no PBP!

O PERCURSO
Em Saint Quentin é tudo festa! Motocicletas batedoras, cruzamentos bloqueados.
Largo sozinho e apreensivo pelos demais. Será que encontrarão as suas bicicletas?
Aos poucos vou ultrapassando os ciclistas do grupo, cuidando e recebendo os aplausos daquele público incansável, em todas as esquinas por que passamos. Após um bom período, acho que havia ultrapassado de 300 a 400 bicicletas, consigo identificar a voz do eufórico Luis, no meio da multidão, e com ele encontro o Jorge, Silvia, dentista, que havia feito 15 audaxes 200 naquele ano, e outro português, vou andando junto e fico feliz por ter encontrado parceiros do nosso grupo. O pelotão vai indo rápido, geralmente em fila de dois a dois, mas as caramanholas vão caindo do suporte devido à trepidação e resistindo as quedas e atropelamentos, mas ao recolhê-las, vou me distanciando do pelotão, e até encontrá-lo novamente tem que se fazer muito esforço, que deve ser comedido no início da prova. Após a terceira queda, desisto de andar com o pelotão e aos poucos vou acompanhando pelas tandens, que eram muito ágeis, além de fazer companhia naquela noite interminável.
Chegamos em Mortagne-au-Perche, bastante montanhoso, PC com café demorado, parto apressadamente em direção ao próximo PC onde nosso apoio nos aguardaria.
Interminável madrugada, muita umidade, frio, parece que Villaines-de-la Juhel não chegava nunca, mas enfim, apareceu o vilarejo e logo encontro nosso amigo Lacerda com o carro estacionado no local, como combinado, tranqüilizo-me, mas um pouco assustado com o cansaço apresentado até então, e lembrando das condições adversas do tempo e criando confiança em nosso amigo Lacerda, que até então não conhecia, retiro o alforje desenvolvido especialmente para a ocasião e utilizo os bolsos das camisas e do casaco apenas, além da bolsa de selim que continha o material mecânico (1 câmara, vários remendos colantes, canivete de chaves e lanterna auxiliar e farol cateye emprestado pelo Calvete.) Dou um cochilo de trinta minutos e vou carimbar o passaporte!
Em Fougères, hora do almoço, com mãos e pés frios, vidros do restaurante embaciados, tudo úmido, e um belo bandejão de comida bem caprichada, cafezinho e sobremesa.
Em Tinténiac, um lanche da tarde, na saída ainda encontrei rapidamente o Lazzari, chegando, saio apressadamente e vou acompanhando como possível em um pelotão misto, até encontrar um grupo de franceses que moram em Loudéac, mas não são de muita conversa com meu inglês, tento acompanhá-los em silêncio. Gostaria de ter chegado entre 18 e 20 h conforme meu planejamento inicial, mas chegarei em torno de 23 30h. Localizado nosso amigo Lacerda, recebo notícias da queda do Luis e estrago na catraca o que o fez pedalar precariamente os últimos 85 km. Após lauto jantar, na fila do dormitório, escuto aquele sotaque inconfundível do Jorge, que recomendava não dormir em Loudéac! Somente em Carhaix! Que surpresa! As 3h partimos e ainda conversei com Luis, estimulando-o a prosseguir, pois estava querendo desistir devido o cansaço.
É um bonito trajeto até Carhaix, café da manhã, algumas montanhas, chega-se numa estrada sinuosa, inesquecível, formamos novamente um pelotão, bastante rápido com alguns americanos. Á seguir encontramos o Jorge e a dra. Sílvia e vamos juntos, subindo todo aquele penoso trajeto, o mais alto da prova (400m.), segundo Jorge, e com o vento aumentando, chegamos no alto da colina, e temos uma visão maravilhosa, com o Mar do Norte a nossa direita e o Oceano Atlântico a nossa esquerda, e iniciando-se uma longa descida até Brest. Maravilhosa, inesquecível. Todo aquele mar, crivado de manchas brancas, pequenas embarcações, chegamos à maravilhosa cidade de Sizum e depois aquela baia de Brest, com ponte muito bonita e inúmeros barcos na água. Não podemos esquecer que aqui havia um pouco de sol querendo aparecer!
Na ponte em Brest, Jorge Português oferece entrevista como brasileiro, que fala francês, e vou seguindo lentamente, morro acima. Quando chego ao PC fico sabendo que sou o primeiro brasileiro a chegar, pelo Costa, que infelizmente machucou-se, tendo que abandonar logo no início da prova devido lesão na córnea, causada pelo plástico do crachá ao ser instalado em torno do pescoço, raspando acidentalmente no olho esquerdo. Isto sim é que é azar!
Apenas o David, que na realidade é francês, morando no Brasil, havia chegado do nosso grupo, em Brest até então! Quanta felicidade e cheguei a ligar para minha família em Porto alegre para compartilhar o feito. Chega o Jorge, almoçamos, descansamos e logo nos mandamos adiante! Fiquei um pouco para trás pois estava brigando com o meu casaco forrado amarrado abaixo do selim e frequentemente caindo e entrando na roda traseira, várias paradas por isto, mas tinha que cuidar muito deste casaco pois havia sido muito útil até então e não dispunha de outro local para sua acomodação.
Naquela descida de Brest, inesperadamente ouço meu nome vindo do outro lado da rodovia! Era a Adriana, seguida pelo Guilherme Kardel. Encontrei ainda a seguir creio que o Lazzari, Juan, Adriano Formiga e ainda o Calvete mais atrás! Que beleza, encontrar todos ainda pedalando e subindo em direção a Brest! Foi outro momento inesquecível!
Retornando à Carhaix, solicito ao apoio mecânico que lubrifique a corrente, e enquanto o mesmo solicita a troca das balacas também, e recusado por mim, vou lanchar, e, na saída, encontro meu pneu dianteiro murcho. Jorge e Sílvia passam por mim e não atendem ao meu chamado! Decido trocar sozinho, apesar de estar na frente da oficina mecânica, já que tinha uma câmara reserva, e seguindo adiante, após algumas dezenas de quilômetros, encontro novamente a dupla Jorge e Silvia com quem pedalamos bastante, até decidirem fazer uma pausa em creperia e eu decido prosseguir apesar da chuva que havia recomeçado.
A estrada bastante secundária, poucos ciclistas e vamos procurando o trajeto lentamente, quando novamente observo o pneu dianteiro murcho! Chuva, escuridão e nenhum abrigo, mãos molhadas, ninguém oferece ajuda, já que havia utilizado a única câmara disponível quando teria então que remendar e na chuva não seria muito fácil!
Optei por tentar ir enchendo o pneu ocasionalmente até Loudéac, o que deu certo, pois só tive que encher mais uma oportunidade. Entretanto a situação dos freios foi ficando calamitosa, pois a cada tentativa de frenagem, o ruído era extremo e a frenagem insignificante, causando uma sensação de insegurança muito grande, frente à possibilidade de acidentes e possíveis colisões entre parceiros, fazendo com que eu me distanciasse dos demais e para auxiliar um pouco nas frenagens murchei o pneu traseiro. Nestes últimos 15/20 km até Loudéac foram inesquecíveis e assim que cheguei fui direto à oficina, providenciar o conserto do pneu e troca das balacas. Jantei. Tomei banho, lavei algumas roupas e me desfiz de minha bermuda antiga, levada intencionalmente com esta finalidade. Dormi aproximadamente 3 h, tomei café e cedo pela manhã tomo o rumo a Tinténiac, após abastecimento no carro de apoio e recebendo mais atualizações do Lacerda que tinha que deslocar-se até um ciber-café para observar nosso deslocamento e obter previsões de chegada!
A saída é um pouco conturbada pois retorno ao apoio para buscar algo que não me lembro, talvez uma câmara nova do Klaus. Encontro um americano e vamos mantendo um bom diálogo quando ocorre novo pneu vazio!Desta vez o traseiro, meu parceiro oferece ajuda, mas como tinha tudo que necessitava, estávamos atrasados e com boas condições, dispensei a ajuda pois, anteriormente quando precisei ninguém havia se oferecido e agora eu não necessitaria de ajuda.
Câmara trocada, sigo alguns km e novo furo no traseiro! Novo contratempo e a folga vai ficando pouca, vou ficando ansioso e parece que está ficando difícil manter-se no tempo! Chegando a Tinténiac, solicito a troca da câmara traseira que havia remendado, e exame do pneu em virtude dos múltiplos furos, enquanto almoço. Quando retorno, sou informado que não há nada com o pneu pois o mesmo não teria murchado enquanto estava almoçando. Muitos ciclistas para atender na minha frente, o tempo vai se esgotando e tenho de insistir muito para que finalmente troquem a câmara e examinem o pneu e não encontrando nada! O drama continua, pois o “mecânico” apresenta dificuldade em encher o pneu com a bomba de pé sendo que na cena final, encontram-se quatro pessoas para encher um pneu! O relógio não parava de girar, e me mando rapidamente embora quando vejo o Lazzari chegando, mas sigo em frente!
Encontro a Steicy, americana, que junto com seu companheiro mantinham um bom ritmo de speed e propus entrar no pelotão, mas logo nos primeiros 15 km, novo furo no pneu traseiro. Infelizmente estava difícil manter um ritmo! Como estávamos atrasados, propus trocar sozinho o pneu, não comprometendo os demais, que pertenciam a outro grupo de largada, 22 ou 22h30min h.
Aí as mãos já sem tato, dificultaram muito a troca do pneu! Sequer a tampa foi fácil de remover, alguns minutos preciosos perdidos porque não conseguia desrrosquear a tampa do ventil, quando tive a idéia de girar todo conjunto, aproximando a porca, o que deu resultado e finalmente pude examinar o pneu, quando encontrei um corte de um cm. no mesmo, provavelmente causado quando murchei o pneu no dia anterior! Ainda bem que havia comprado uma câmara extra naquele PC teimoso! Fiz um manchão com três remendos apostos com um pedaço de papel, no pneu e câmara nova, tudo montado, e assim ficou até o final da prova. Neste trajeto encontrei um alemão com qual fiz dupla até quase a chegada em Fougères, quando novo pneu murcho! Pneu dianteiro consertado, mas muito judiado devido ao fato de pedalar em pé, chego ao PC e decido trocar o pneu dianteiro. Neste PC com oficina muito prestativa, enquanto vou tomando um chopp pra relaxar. Parece que o pneu tava meio ruim mesmo, pois o mecânico queria ficar com o mesmo como souvenir.....tava meio desfiado mesmo!
Agora era chegar a Villaines-la-Juhel, próximo destino, o que não foi muito fácil! Encontrei outro pelotão de origem aparentemente inglesa, alguma ilha/colônia, também comandados por uma mulher, com uniforme rosado, chamando atenção seu pai e muitos que pedalavam sem capacete! Era uma alternância muito grande nas posições destes ciclistas, não entendia bem o que acontecia, paravam para telefonar em orelhões, mais adiante pararam em uma vila, parecia ser um posto extra (ou surpresa) mas era para darem uma entrevista, quando decidi seguir sozinho! Mais adiante, estrada bloqueada, polícia, ambulância, policial pediu para e parar quando perguntei se era algum ciclista e ela confirmou que sim. Ofereci ajuda médica, dizendo ser médico neurocirurgião e ela disse que era um italiano, não havia necessidade. Pista esquerda é liberada e consigo ver o acidentado ser removido de maca, e logo após o rugir das sirenes.
Cheguei a uma vila, a noite vai chegando, compro um baguete em um “Bar dos esportes” e novo rugir de sirenes, penso que seria a transferência do ciclista para outro hospital. Mais adiante, no escuro, vejo luzes azuladas e brancas no céu formando um halo, e penso que seremos recebidos com fogos de artifício na festiva cidade de Villaines-la-Juhel, vou ficando animado, as luzes continuam, quando chego perto, observo serem luzes, que associadas com pingos de chuva, davam aquela impressão de fogos de artifício, que na realidade eram mais duas ambulâncias resgatando ciclistas. A estrada seguia, o cansaço ia aumentando, e as recordações iam ficando pesadas.
Lembrei-me das seis remoções que haviam ocorrido em Loudéac, devido à hipotermia, na segunda noite quando perguntei a um voluntário, ao ver uma remoção! A estrada seguia, sempre em frente, escura, com apenas uma marcação horizontal pequena central e nenhuma nas laterais, por vários quilômetros, escuridão total, segui praticamente sozinho. As recordações iam ficando pesadas, o cansaço aumentava, quando finalmente cheguei ao PC. Escoltado pelo Lacerda, encontro o Costa e Richard que desistia ali, comento sobre os achados do último trajeto, pensando no que ainda poderia ocorrer, associando o trajeto ruim, ambulâncias e o cansaço, quando decido perguntar pela organização, expondo meus motivos e como médico achava que a prova deveria ser suspensa ali, no que fui acompanhado inclusive por um estranho que concordava com a minha posição, sendo orientado a enviar e-mail para a organização quando minha intenção era suspender a prova àquela hora, sendo dissuadido pelos organizadores que afirmaram que aquilo faz parte da prova. Argumentei as condições meteorológicas, o cansaço, os acidentes visualizados e as poucas condições de sinalização da estrada recentemente percorrida! Enfim, acabei desistindo do meu pedido.
Jantei um belo prato de massa com guisado, não consegui comer tudo, muito bem assessorado pelo amigo Lacerda, que ajudou nos preparativos para prosseguir, passei dermodex, também nos pés, e coloquei meia seca envolta em saco plástico, na sapatilha molhada, e decidi seguir quase sozinho. Após algumas esquinas ia encontrando o pessoal meio perdido conferindo as sinalizações no escuro, e confiando na minha orientação fui ganhando a dianteira e seguindo sozinho, tentando ganhar terreno perdido.
Quando sozinho, puxando a frente, bem longe dos demais e após fazer uma curva em meio a escuridão, encontro aquela linha sinuosa vermelha enorme! Que visão maravilhosa, serpenteava por dentro da escuridão! A estrada prosseguia interminável quando parei para curtir um pouco esta imagem, observar os pelotões passando interminavelmente, alimentar-me, tentando vencer o sono! Fui ficando mais cansado, o sono começava a surgir, aquela estrada ia ficando cada vez mais deserta, escura, quando adentramos, em um bosque interminável, com árvores bem altas, o cansaço surgindo, ia pedalando meio dormindo, como um bêbado e ia escrevendo círculos pelo caminho, vendo surgir grandes viadutos, prédios e objetos indescritíveis que melhor observados não eram nada mais que simples árvores que cruzavam a estrada!
Um sono infernal. Creio que foi uma das piores sensações que senti, pois pedalava, mas havia uma força descomunal que me puxava para baixo, parecia que haviam arrancado o meu cerebelo e consegui acordar um pouco quando escutei alguém exclamar “Good Mornning”, levando um grande susto, acordei um pouco, e com muita sorte, finalmente consegui chegar em Mortagne-au-Perche, após registrar a passagem, tomei um lanche e aí decidi descansar 15 minutos, acionei o despertador e quando consegui acordar já haviam passado 40 minutos, o PC já estava ficando vazio e apenas com o pessoal da limpeza circulando quando resolvi sair apressadamente em direção a Dreux. Neste trajeto encontrei novamente a Steicy e seu marido, e refizemos nosso pelotão, após informar sobre os acontecimentos até então e ela procurando organizar o ritmo de cada um, também encontrei o alemão e mais um outro ciclista, tb alemão, que já nos acompanhava, que não me lembro dos nomes, indo finalmente até o ultimo PC, sem praticamente nenhuma intercorrência.
Almocei rapidamente um prato de lasanha e parti apressadamente, meio confuso, não identifiquei corretamente o local que havia deixado a bike, e pensei que a bike havia sido roubada. Após pedir desculpas, segui adiante e encontrei um francês que vestia a camisa do PBP e tinha uma speed e pedi que o mesmo pudesse fazer o favor de me acompanhar, pois estava extenuado, pretendendo fazer vácuo e mostrar o caminho, pois o vento naquela planície era muito intenso, bem como mostrar o caminho. Imprimimos um ritmo forte e nos revezavas-mos, conversamos um pouco, até que o mesmo ficou irritado, acho que pela dificuldade em prosseguir a conversa em língua inglesa, e prossegui sozinho, indo meio apressado, não entendendo porque todos pedalavam despreocupadamente. Achei que só eu era do pelotão das 21:30h e por isto os outros iam despreocupadamente, mas na dúvida, resolvi acelerar o quanto pudesse! Mais uma vez a caramanhola caia, mas a deixei para trás como recordação, pois estávamos chegando mesmo, não necessitaria dágua e deixei-a como um souvenir. Uma grande subida ainda pela frente, ia chegando a Saint Quentin.

CHEGOU O FINAL
Ao ir chegando naquelas ruas arborizadas, inúmeros cruzamentos, que na largada estavam bloqueados, agora apresentavam sinaleiras, acho que quase 20 no total, e apenas duas consegui pegar no verde! Até clipar e seguir embalado, durava um tempão, o prazo ia ficando curto, encontrei um sueco que tentava me ajudar com vácuo, mas não conseguia mais acompanhá-lo, ao chegar no ginásio, me auxiliou a estacionar a bike, enquanto procurava tentar chegar no PC, mas o caminho estava bloqueado devido a manobra de um veículo (ambulância?), e depois encontrei aquelas intermináveis filas aguardando a entrega do passaporte pela última vez! Morto de cansaço, meio tonto, quase desmaiando, muita sede.
Enfim, havia chegado ao fim, finalmente havia conseguido terminar o maior objetivo do ano de 2007! Após um almoço não muito saboroso, junto com o abraço do Lacerda, encontro o Jorge e ainda auxiliamos a desatolar, isto mesmo, desatolar o carro do apoio (Denis) sobre o canteiro central, imaginem a quantidade de água que caiu para poder acontecer um atolamento em pleno canteiro central!
Finalmente conseguimos desmontar a bike e retornar ao hotel!

2011, O QUE FAZER?
Muitas coisas aprendemos com esta prova! Afinal, somos um grupo, uma delegação ou um bando de gente desordenada? Pergunta difícil de responder!
Como foi dito por alguém, o clima no hotel, parecia um Big Brother! Imaginem só! E realmente o clima era um pouco tenso.
Administrar todas aquelas vaidades era um desafio muito grande e gerador de stress desnecessário. Discutíamos por coisas óbvias, como a instituição do carro de apoio, por exemplo. Éramos um grupo, mas não tínhamos uma liderança legítima. E aí, como fazer? De quem é esta responsabilidade? Um cuida da reserva do hotel, outro das camisetas e da lista de mensagens! Foram belos exemplos de dedicação, mas não eram aceitos pela integralidade do grupo, pois não tinham a representatividade necessária!
É necessário, já que estamos num país estrangeiro e distante de nossas raízes e que por este fato são condições um pouco adversas para a maioria de todos nós, visto ao menos pela dificuldade de comunicação! É fundamental unir os esforços!
Quando se participa de uma atividade destas, representamos o nosso país e por isto acho que deveríamos ter um consenso e ao menos todos deveriam acatar. Entretanto sequer conseguimos que todos usassem a camisa idealizada para todos nós. E ao menos sair e chegar todos juntos na largada! Imagina o tamanho do desafio de largar e pedalar em grupo? Entretanto não é isto que pedimos. Vamos estabelecer um consenso!
Também agora temos uma taça, que deveria ficar aos cuidados de quem?
Por isto sugiro que se forme uma associação brasileira, por exemplo, que tenha legitimidade entre os interessados e que vise formar uma “delegação” mais homogênea e que seja um pouco mais útil do que apenas tirar a foto oficial momentos antes da largada.
Só assim creio que poderemos ter resultados mais satisfatórios, com menor desgaste e que possibilite um pouco mais de prazer, pois certamente ainda nos encontraremos nalguma pedalada por aí.
Parabéns á todos que me acompanharam a Paris e peço desculpas aos que de alguma forma possa ter prejudicado, mas posso dizer que foi o melhor que pude fazer por todos nós. Procurar unir o grupo.

Link com fotos pbp 2007

Link com fotos de Paris

Alemanha-Altmühltal Naturpark

Itália-Carrara e Cinque Terra

Se houver interesse posso melhorar qualidade das mesmas mediante solicitação.

Endereço email: bracke@terra.com.br

7 comentários:

3 de out de 2007 23:22:00
Fabiano disse...

bom, agora só falta a capa dura e umas 10 mil copias pra começar, hehehheheh

abraços e parabens

4 de out de 2007 09:20:00
Kieling disse...

E marcar uma sessão de autógrafos!!

Abraços
Kieling

5 de out de 2007 17:44:00
marcelo_montanhista disse...

Muito bom relato!! Passou bem o espirito e acontecimentos de uma prova tão longa. Os desabafos e comentários sobre a formação de um grupo unido é pura verdade em diversas áreas. E não seria diferente nas longas distâncias do ciclismo. Por isso temos que conviver com as diferenças individuais e sempre manter o bom senso. Espero treinar bastante para 2011 estar dentro deste grupo!!

6 de out de 2007 12:35:00
circe disse...

Caro, não caríssimo Erich Brack, fiquei estrarrecida com seu relato. Não sei se foi mais pelos acontecimentos, pela bravura ou pela capacidade de percepção que você projetou. Parabéns pelo belo ser humano que és e agradeça aos pares que conquistastes, nada é por acaso. Desafios como este são provas de nossas forças, não só físicas, como pscilógicas e principalmente morais. A tend~encia é melhorarmos como espécia. Bravo! Circe

6 de out de 2007 16:15:00
Calvete disse...

Erich, parabéns pela prova e pelo relato. Só tenho um reparo: quando tu falou da "equipe brasileira" acho que tu foi muito brando...

8 de out de 2007 20:06:00
ninki disse...

Erich, grande parte do relato eu já conhecia, do jantar de confranternização do dia 20 passado!
Mesmo assim, li em duas partes...um verdadeiro livro, parabéns!!!
Gostei muito de ler, ja que teu texto está rico de detalhes, que me fez perceber cada minuto da prova!
Uma verdadeira batalha!!!

um abraço, ninki

10 de out de 2007 19:37:00
J.Maciel disse...

Parabéns Erich pelo detalhado e emocionante relato, tão vívido que permite visualizar as paisagens e até mesmo "sentir" o cansaço experimentado. Espero fazer parte do grupo que representará o Brasil no PBP/2011, com certeza melhor organizado e unido, aproveitando a experiência dos bravos participantes de 2007.

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