sábado, 8 de setembro de 2007

Relato PBP - David Dewaele

RELATO DAVID DEWAELE
Paris-Brest-Paris 2007
20 a 24/08/2007

Os desafios antes da prova

Participar da prova Paris-Brest-Paris 2007 foi um sonho acalentado e organizado por mais de um ano. Tudo começou em julho de 2006 e minha motivação era enorme. Falava dela aos meus amigos do grupo de pedaladas, à minha família, aos meus alunos... Mas para isso eu precisaria passar pelas etapas classificatórias (no Paraná 200, 300, 400 e 600 Km), providenciar meu dossiê de inscrição, comprar as passagens, providenciar seguros, tomar o avião e, finalmente, estar na linha de largada, no dia e hora fixados pelos organizadores. Fiz uma promessa para mim mesmo de “não abandonar a prova”. Eu me sentia psicológicmente preparado, mas o medo de que meu corpo não respondesse aos meus estímulos mentais me perseguia. Apesar das extenuantes horas de treinos solitários, das provas eliminatórias e das dificuldades do dia-à-dia superei meus medos e acreditei que, assim como durante minha luta contra a leucemia anos antes, minha perseverança e poder mental me auxiliariam a superar qualquer dor, medo ou falta de preparo físico. Foi assim que eu, diariamente, pavimentei meu caminho e preparei minhas engrenagens para enfrentar as incertezas da prova Paris-Brest-Paris.

A falta de patrocínio financeiro, de tempo para treinar e a incompreensão de meus empregadores foram algumas das barreiras que tive de ultrapassar. Não bastasse isso, no mês de julho passado, estávamos vivendo os transtornos do transporte aéreo no Brasil. Os custos, o medo dos atrasos, avarias ou extravios de bagagens me fizeram decidir pelo não envio de minha bicicleta para a França! Quem, na França, poderia me emprestar uma bicicleta equipada e adequada para a prova? Depois de vários contatos à torto e à direita, descobri que meu ex-cunhado é presidente de uma associação de triatlon... E um atleta francês, amigo do meu cunhado, gentilmente me emprestou sua bicileta: uma speed branca, preta e azul.

Um mês antes do início da prova, minha mente e meu espírito já se encontravam na França e eu continuava meus treinos aqui em Curitiba. Eu não conhecia a bicicleta francesa, mas sabia que poderia pedalar e esta informação me bastava. Eu não imaginava quão diferente ela era da minha moutain bike brasileira. Tudo o que eu sabia é que ela era mais leve! Esta informação me permitia pensar que eu seria capaz de compensar meus problemas de adpatação com um certo ganho de tempo!

No dia 12 de agosto cheguei a minha Ghyvelde natal: uma cidadezinha de cerca de 3.500 hab localizada no Norte da França. Aproveitei meu tempo para descansar da viagem, rever meus familiares, cuidar dos preparativos da prova e, o mais importante, dediquei meu tempo às pedaladas com a minha bicicleta francesa. Pedalava! Pedalava cerca de 150 km por dia, tentando adaptar meu corpo aos seus movimentos, a escutar seus ruídos e a compreender suas manias, respirando o ar da minha terra e apreciando as paisagens de minha infância! Inesperadamente, numa destas pedaladas fui atropelado por um carro! Fui jogado ao chão... ambulância, bombeiros, polícia de trânsito, pronto-socorro, exames! Tudo o que eu queria saber era se minhas pernas estavam no devido lugar e se minha bicicleta francesa estava inteira! Mesmo não tendo certeza da gravidade dos meus ferimentos, mantive sempre o ânimo e a esperança de participar do PBP.

Felizmente nada de mais grave me aconteceu, além de alguns hematomas pelo corpo e um nariz degringolado! Ufa! Pensei comigo mesmo! Que ironia do destino ! Logo eu, que havia pedalado mais de 6.000 km pelas difíceis estradas do Paraná e ruas de Curitiba sem ter sofrido incidentes desta natureza, ser atropelado por um carro no País das bicicletas, do Tour de France e do Paris-Brest-Paris! No momento do acidente cheguei a pensar que meu sonho havia acabado, porém, entendi que esta era só mais uma dificuldade a ser superada e que eu poderia pedalar o PBP.

No dia seguinte ao acidente, peguei novamente a bicicleta francesa, pisei no pedais e voltei para a estrada, agora com treinos um pouco mais leves. Agora com uma determinação ainda maior de concluir a prova. Transformei minha inflamada e ardente ira em energia e continuei meus preparativos para o PBP 2007. Chegara o momento de partir ! Minha irmã me levaria à Paris, enquanto meus pais me esperariam em Carhaix e me prestariam assistência nos postos de controle da volta.

Véspera da largada
Finalmente conheci pessoalmente parte da equipe formada por 12 brasileiros e 4 estrangeiros (o português Jorge, o inglês Simmons, o suíço Klaus e eu, francês). Dos brasileiros, a maioria era de gaúchos, um carioca, uma brasiliense Adriana. Meu primeiro contato foi com o Luiz Faccin, gaúcho de Santa Cruz do Sul, grande incentivador do grupo brasileiro. Encontrei Lazary e sua esposa que me relataram suas dificuldades com a viagem, o extravio de suas bagagens e das bicicletas da equipe brasileira. O que eu temia aconteceu! Apesar das tensões, todos estavam animados e felizes por estarem participando deste PBP-2007. Juntos, finalizamos nossas inscrições, apanhamos nossas camisetas oficiais, crachás, documentos e placas. Minha placa era a 3269. Passei o dia com minha irmã, Lazary e sua esposa e Faccin - que havia comprado uma nova bicicleta, pois a sua ficou um bom tempo perambulando pelas esteiras de bagagem dos aeroportos! Passamos bons momentos com a equipe e como se diz popularmente na França, e Faccin adorava repetir, “nous sommes cinglés, complètement cinglés!” (nós somos malucos, completamente malucos!). Estava feliz em receber a equipe brasileira em meu País, auxiliando-os em suas dificuldades com a língua francesa.
Ao chegar no local das inscrições (Gynmasium de Guyancourt em Saint-Quentin-en-Yvelines) passei por um momento bastante engraçado! Não sabia se me dirigia ao local destinado aos franceses ou aos brasileiros. Pensei e decidi pelo lado francês! Ledo engano! Minha ficha de inscrição não se encontrava lá! Então dirigi-me do lado brasileiro... também não estava lá ! Crise de identidade! Os organizadores quebravam a cabeça para loalizar meu dossiê. Finalmente o francês estava inscrito no grupo brasileiro! Francês, brasileiro, parananense, curitibano, nordiste, dunkerquois ou ghyveldois, não importa! A verdade era que as minhas grandes emoções ciclísticas eu vivi nas ruas de Curitiba e nas estradas e cidadezinhas dos Campos Gerais do Paraná.

Aproveitamos o final desta tarde para descansar. Este era o momento para fazer uma pausa, esvaziar a mente, aquietar os ânimos, e tentar respirar um pouco da atmosfera de Paris. O clima estava péssimo e a Méteo France anunciava mais chuvas, vento e frio!

20 de agosto de 2007 - largada e 1º dia

Não consegui dormir bem. A ansiedade era grande... Vesti minha camisa brasileira, tirqamos algumas fotos,e, às 16:00 H pegamos nossas biciletas e nos dirigimos ao Gymnasium de Guyancourt - pequena cidade à 20 Km de Paris - local da largada. Os últimos tratos na bicicleta, abraços e incentivos. Felizes e receosos, os 5.300 ciclistas se organizavam para partir nos lugares e horários previstos. Milhares de bicicletas, algumas fantásticas, outras nem tanto. Vi verdadeiras ferraris em 2 rodas, tandem, triciclos, bicicletas couchées (bicicletas em posição deitada), bicicletas futuristas, antigas e originais... equipamentos modernos e sofisticados e eu com minha bicicleta francesa. Estava eu bem equipado? Agora era tarde demais! Só nos restava compartilhar com todos os ciclistas de diferentes nacionalidades, acompanhantes, expectadores e curiosos a beleza do espetáculo! Os minutos que antecediam a largada se transformavam em horas!

Neste momento pensei em meus amigos, especialmente no Pedro Burba que me incentivou a pedalar, nos meus colegas da Associação Audax do Paraná, na minha família, nos meus amigos de pedaladas, na minha querida amiga que está lutando destemidamente contra uma leucemia... Um profundo sentimento de gratidão tomou posse de mim por estar fisicamente saudável, por ter uma família e amigos. Meu desejo era terminar a prova não só por mim, mas por todos aqueles que estavam comigo! Meu último pensamento foi para minha esposa que estava no Brasil observando tudo a 12.000 km de distância pela webcam.

Conversei com diversas pessoas, na maioria curiosos que queriam saber um pouco mais sobre o Brasil. Quando chegou o momento da partida, falei para dois senhores ao meu lado: “Senhores, sou o homem mas feliz do mundo. Estou aqui na França e vou realizar um sonho, o meu sonho!” Estava muito orgulhoso do meu percurso e de poder viver este momento. O Estádio de Gyuncourt estava cheio e após uma série de verificações dos organizadores, parti dia 20/08 às 21:30h com um grupo de 500 ciclistas, dentre eles o gaúcho Faccin e o português Jorge.

Quando sôou o alarme e chegou o momento da partida, todos gritaram de alegria. Minha irmã tirou uma última foto e me disse “Au revoir! Bonne chance! Je veux seulement te revoir vendredi à Paris” (Tchau! Boa sorte e só quero te ver sexta-feira em Paris). Os expectadores gritavam palavras de apoio, aplaudiam e gritando nos desejavam Boa sorte! Coragem! Bravo! Allez! Eu só via as luzes traseiras vermelhas das bicicletas. Na multidão o grupo brasileiro acabou se dispersando e cada qual tomou seu rumo, seguindo sua estratégia de prova.

Os primeiros 50 quilômetros

Era noite e os primeiros quilômetros foram perigosos devido a grande aglomeração de ciclistas. Caíam caramanholas e outros pertences e apetrechos essenciais para o ciclo-turista. Nervosos, todos tentavam alcançar uma boa velocidade e um bom rítmo. Começávamos a nos distanciar de Paris e entravámos noite a dentro com chuva. Passávamos por cidades, florestas e estradas escuras. Logo, vieram as primeiras descidas que se tornaram ainda mais perigosas pois estavam molhadas.

Meu primeiro incidente ocorreu no Km 50. Pneu traseiro furado. Isto iria se repetir muitas vezes nesta jornada. Por sorte, aconteceu no meio de um vilarejo, onde uns poucos habitantes permaneciam acordados para olhar a passagem dos ciclistas. Parei e imediatamente as pessoas vieram me ajudar a trocar meu pneu. Naquele dia, estava vestindo a minha camisa brasileira e isso foi motivo para conversarmos rapidamente sobre o Brasil e a minha participação na prova.

Os desafios da prova começavam a ser desvendados. Enquanto falava, percebi que minha câmara de ar não enchia. Problemas com a bomba de ar. Finalmente, consegui encher meu pneu o suficiente para chegar até o primeiro posto de controle. Agradeci a todos e parti, pois pedalar era preciso! Era reconfortante receber o apoio e as palavras de incentivo das pessoas que nos acompanhavam na beira das estradas. Aliás, esta foi uma prática durante todo o percurso da prova.

Km 530 à Carhaix - a primeira pausa e revisão da estraégia

Vilarejos e florestas se confundiam ora pela névoa, ora pela chuva. Frio, vento contrário, umidade do ar, primeiras subidas, transpiração. O desconforto começou bem antes do previsto. Percebi pouco a pouco que esta prova requeria calma e reflexão. O mau tempo era uma variável com a qual eu não contava e era preciso tomar alguns cuidados, não perder a concentração e guardar minhas energias. A Méteo France anunciava chuvas e ventos fortes durante todo o dia seguinte. Muito frio à noite, relevo sinuoso, com subidas e descidas importantes (no total da prova foram 360 subidas e 10 Km com desníveis de altitude).

Cheguei à Carhaix, 530 km de Paris. Aproveitei para descansar, colocar roupas secas, me alimentar e checar a bicicleta. A prova era longa e percebi rapidamente que deveria mudar minha estratégia de corrida, pois as condições climáticas não eram nada favoráveis. Meu plano inicial era de começar a pedalar de madrugada, manter um rítmo forte durante o dia e descançar o máximo que eu pudesse durante à noite, para não alterar muito meu relógio biológico.

O sono, o suor, o cansaço e as dores no corpo inteiro não tardaram a aparecer. De agora em diante, eu deveria gerir meu estoque de energia aproveitando ao máximo o vácuo dos outros ciclistas, sobretudo quando houvesse vento; manter a regularidade e a qualidade das refeições; beber sempre antes que a sede chegasse; descansar pelo menos 1 hora a cada 80 km; evitar riscos desnecessários nas descidas; evitar pedalar sózinho para manter-me literalmente acordado e não me perder; pedalar no meu rítmo e em companhia de ciclistas que tivessem o mesmo desempenho que eu; aproveitar a infra-estrutura dos postos de controle para descansar e me preparar mentalmente para o próximo trecho, visualizando as dificuldades a serem enfrentadas; não fazer paradas inúteis; nas descidas com chuva, manter uma certa distância de segurança e não assumir riscos exagerados. E o mais importante, não deixar que meu corpo controlasse minha mente. Isto exigiu um esforço enorme! Em duas ou três vezes, quando meu corpo começou a reclamar muito e eu estava no limite de minhas forças, utilizei esta estratégia e consegui superar as dores e as dificuldades, não só nesta mas em outras circunstâncias de minha vida. A meta agora era manter a calma e chegar vivo em cada posto de controle !

Olhava o relógio, o velocímetro. Cantava sózinho, pensava no Brasil, na minha esposa, na chegada à Paris, olhava a natureza... Tudo para esquecer as dores e para evitar o estresse de um possível abandono ocasionado por problemas técnicos e outras surpresas que as estradas nos reservam.

Meus momentos decisivos

O primeiro, foi próximo à Loudéac, quando surgiu na minha frente, de forma inesperada e sob uma forte chuva, um senhor, aparentando 75-80 anos, pedalando com dificuldades sua velha bicicleta, e me diz, com seu marcado sotaque bretâo, Allez! Courage! Nossos olhares não se cruzaram, mas seus grito de encorajamento foi um sopro de ar fresco para enfrentar o caminho que estava à frente, o próximo posto de controle.

O segundo é estritamente pessoal e me comoveu muito. Foi quando minha mãe me relatou que meu pai havia acendindo uma vela numa igreja no meio do percurso. Eu não sou cristão praticante e acredito, sobretudo, no coração, na lealdade e na bondade das pessoas, na beleza da natureza, no poder da mente humana. Meu pai não é diferente de mim e, por isso, seu gesto me comoveu tanto. Meus pais sempre estiveram presentes nos momentos mais difíceis de minha vida e eles continuavam comigo nesta prova me prestando apoio em todos os postos de controle de Carhaix à Paris. Na ida não contei com nenhum tipo de assistência.

O terceiro, foi saber que eu não estava sózinho. Em cada posto de controle, a organização alimentava um banco de informações em tempo real e todos os meus companheiros de pedal em Curitiba, minha esposa e meus amigos acampanhavam todos os meus passos, ou melhor minhas pedaladas.

Km 850 à Fougères – os pneus de novo ?

Chovia muito e acabava de passar por um grupo de ciclistas. Estava me sentindo muito bem e confiante na minha chegada, quando mais uma vez o pneu furou! Eu havia esquecido que isto poderia acontecer novamente. Foi uma sequência de falta de sorte, de muita ira e tensão. Em 30 quilômetros meu pneu traseiro furou três vezes. Senti como se fosse alguém me dizendo: “Cuidado, a prova ainda não terminou”. Você tem que provar que você é capaz de continuar”. Entendi o recado. Mas, precisava tantas mensagens iguais? Tentei me acalmar e lembrar da minha estratégia de manter o controle e aquietar a mente frente a qualquer situação.

Neste momento, o grupo de ciclistas que eu havia ultrapassado passou por mim. Consertei o pneu rapidamente e continuei a pedalar. Minhas mãos estavam pura graxa... desconforto, mau cheiro e caramanhola escorregadia. Ultrapassei o grupo de ciclistas. Nem tive tempo de pensar e minutos depois, o pneu traseiro furou pela segunda vez! Fiquei muito nervoso pois tinha a impressão que eu não terminaria o PBP. Merde! Faltava pouco ! Reparei o pneu, pedalei e ultrapassei o grupo.

Pedalei forte... e outra vez o pneu! Desta vez, o conserto era impossível. Eu precisa de um pneu novo, pois o meu estava com um furo enorme. Pensei que a aventura havia acabado para mim. Eu não queria desistir e naquele momento estava sózinho, na mais profunda campanha francesa. Não via casas, nem pessoas. De repente, avistei dois ciclistas também solitários que se encontravam na beira do outro lado da estrada e que aguardavam a passagem dos ciclistas. Já cansado, nervoso e sonolento tomei cuidado ao atravessar a rodovia, dirigi-me a eles e solicitei socorro. Eram pai e filho, camponeses da região. Seus nomes não sei, mas guardarei sempre comigo a imagem destes anjos bretões.

Bastante ansioso disse ao jovem que eu precisava do seu pneu e que eu pagaria o necessário por ele. Quase sem opções o jovem me disse “Sim, o pneu é seu.” Estava tão nervoso que não perguntei-lhe o tamanho e as especificações do seu pneu ! De nada adiantaria se o dito cujo não fosse compatível com a minha bicicleta. Vendo minha frustração e desespero, o pai camponês disse ter um pneu em sua casa e ele acreditava ser um pneu para speed. Saiu pedalando para buscá-lo enquanto eu e seu filho nos ocupavámos de retirar o meu pneu avariado. O jovem compreendeu a importância da prova para mim e muito contente se prontificou em me ajudar no que fosse preciso. O pai camponês retorna com o pneu e me pergunta: “Qual é o tamanho dos seu pneu?” Tive um frio na espinha e respondi 23 C. O camponês disse: “Está bem, o meu também é 23 C!” Inacreditável! Que alívio! A prova ainda não havia acabado pra mim. No momento em que trocávamos meu pneu, o grupo de ciclistas passa por três outra vez e grita “Hei, seria melhor trocar a bicicleta. Será mais rápido!” Ignorei a gentil saudação e prossegui com minha bicicleta francesa! Agradeci profundamente aos dois anjos bretões que nada me cobraram e que estavam contentes por ter contribuído com o PBP.

Correr atrás do prejuízo

Voltei a pedalar e comecei a pensar o que eu deveria fazer no próximo posto de controle para superar quase uma hora de atraso. Era preciso checar a bike, comprar três novas câmaras de ar, tomar um banho, comer, beber e descansar. Sentia muitas dores nas mãos. Com o inchaço, minhas luvam cerraram minhas mãos, provocando fissuras e sangramentos entre os dedos. Como eu, outros ciclistas encontravam-se com sua mãos, pés e joelhos em situações parecidas. Cheguei finalmente no posto de controle de Villaines-La-Juhel. Uma profusão de ciclistas, curiosos, bicicletas pelo chão, muita chuva, frio e jornalistas que cobriam a prova. Eu me movimentava como um robô. Em um dado momento quando enchia minha caramanhola de água, ouvi um jornalista perguntar a uma francesa, campeã mundial de mountain bike, se ela seria capaz de percorrer 1225 km nestas condições atmosféricas? E ela respondeu “Acho que não. 1225 km é demais para mim, prefiro distâncias curtas e não gosto de pedalar sob a chuva.” Estas frases foram um grande incentivo para mim. Recuperei minha calma, descansei um pouco e retomei minhas pedaladas.

Km 1225 – a chegada à Saint-Quentin-en-Yvelines

Cheguei à Saint-Quentin-em-Yvelines no dia 24/08/2007, às 10:06 H, completando o percurso de 1225 Km em 84:36 H. Este tempo ainda não é oficial- o resultado será divulgado pelo comissão organizadora do PBP 2007 até o final de setembro próximo. Conclui a prova no tempo regulamentar no qual me inscrevi, ou seja, máximo de 90 horas.

Cheguei fisicamente exaurido, com dores horríveis no pescoço (problemas ergométricos com a minha bicicleta francesa), com bolhas nas nádegas, joelhos em frangalhos, fissuras nas coxas, dores por tudo. Some-se ainda todo o mal estar provocado pelas privações de sono – não dormi na primeira noite e nas três seguintes menos de duas horas. Na volta, após Loudéac, o celular que eu usava como alarme e despertador sofreu avarias e parou de funcionar. Nas imediações de Mortagne au Perche meu velocímetro tambéu parou de funcionar. Tudo estava ensopado d´água, inclusive eu! Perdi meus controles materiais e não sabia mais ao certo, meu tempo e quantos quilômetros me restavam a percorrer até cruzar os últimos postos de controle. Em suma, eu só podia contar com meu relógio biológico, com a força das minhas pernas e com a energia que me restava.

Eu que sou um grande dorminhoco, lutei arduamente contra o sono e, por duas vezes, adormeci diretamente no chão no meio de muitos ciclistas. Vi pessoas, em plena madrugada, dormindo em pontos de ônibus cobertos com mantas térmicas, em cabines telefônicas, nas calçadas, debruçados sobre as mesas dos restaurantes nos postos de controle... Era a resignação diante do sono, do incontrolável! A exaustão tomava conta de todos e um silêncio monástico às vezes se instaurava entre os grupos!

As relações de solidariedade que se criam entre os ciclistas são maravilhosas ! A língua não é problema e o inglês dá conta do recado. Certa noite, às três horas da manhã, numa subida, no mais profundo breu da campanha bretã, encontrei um dinamarquês e nós dois pensávamos estar perdidos. Paramos, conversamos, voltamos - não me lembro talves um 1 km - nos informamos e vimos que estavámos no caminho correto. Moral da história. A falta de sono provoca alucinações que nos desconcentram e nos fazem dispender energias preciosas! Eu, mesmo estando em meu país, tive momentos de incertezas e contei com o providencial apoio de outros companheiros!

Finalmente, cheguei à Paris fazendo um esforço descomunal para esquecer as dores nos últimos 5 ou 10 quilômetros. Ao ouvir o barulho da torcida vibrando com a chegada dos participantes, me enchi de energia e cruzei a linha de chegada à Guyancout-Saint-Quentin. Ao longe, vi meus pais correndo em minha direção. Minha mãe não conseguia conter as lágrimas. Abraçei-os e disse-lhes que mereciam tanto quanto eu. Após ter entregue meu passaporte aos organizadores, liguei para minha esposa em Curitiba, no Brasil, só para lhe dizer que eu havia finalmente conseguido realizar meu objetivo e que eu estava bem apesar da fadiga. Minutos depois, levantei minha cabeça, com o pescoço estilhaçado e as pernas latejando de dor, me deparei com uma grande faixa retorcida pela chuva e pelo vento onde lia-se: PARIS-PEQUIM 2008 de bicicleta. A semente de um possível novo sonho foi plantada dentro de mim. Mas esta, é uma outra história.

Para concluir, gostaria de agradecer a todos os brasileiros que me acolheram neste País e que me auxiliaram a concretizar este sonho, pelos incentivos e informações durante toda a fase dos preparativos no Brasil e durante a nossa curta estada na França. Aos meus companheiros de pedal de Curitiba, aos organizadores da Associação Audax Paraná, ao Pedro, aos ciclistas brasileiros, especialmente Faccin, Costa, Lazary e Lacerda, muito obrigado !

Aproveito, também, a oportunidade para parabenizar todos os participantes brasileiros e os demais estrangeiros que participaram do PBP 2007, pela audácia e a coragem demonstradas para superar os desafios desta legendária prova. Felicito especialmente o Faccin, terceiro brasileiro a concluir o PBP, pela sua conquista ! Se o destino, assim o quiser, nos veremos a qualquer hora nas estradas brasileiras ou então até 2011 na França. Au revoir ! Bye! Tchau! Até logo!

Curitiba, 08 de setembro de 2007
David Dewaele

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