terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Quais as razões para se pedalar um Audax?

Depois de uma Audax especialmente difícil, o segundo 300 km de 2006, se criou uma polêmica numa lista de discussão sobre quais são as razões que levam as pessoas a participarem de uma prova à noite, sob frio, chuva e vento. Naquele dia a largada ocorreu com menos de 10 graus e temperatura baixou até perto dos 5 graus na madrugada.

O número de baixas foi impressionante, dos 155 inscritos só 125 largaram e desses 49 desistiram, uma grande parte no PC 100 que se transformou num verdadeiro campo de refugiados.

De toda aquela discussão sobrou um texto bem legal escrito pelo Bagatini. Gostem ou não, certamente esse texto traduz um pouco do que cada um dos "sobreviventes" daquela prova sentiu.


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Por incrível que pareça, ainda tem ciclista que pensa que o desafio de um Audax é a distancia. Ridículo!

Querem fazer 300km de bicicleta? Peguem uma speed de 20 mil reais, escolham um asfalto vazio, reto e plano de 300km, com belas paisagens paradisíacas e sigam por ele, MP3 nos ouvidos, quando o vento estiver a favor, num ensolarado dia de primavera...

Suponhamos que as condições para participar da prova fossem:
- não haveria viva alma por 150 km de ida e 150 km de volta, a não ser os próprios participantes (por conseguinte, nada de apoio medico e mecânico, muito menos resgate);
- não haveria PC, portanto ele teria q levar sua própria água e comida;
- estivesse chovendo, com previsão de chuva para o dia inteiro;
- estivesse frio;
- a largada fosse à meia-noite;
- clareasse as 7:00 da manhã e escurecesse as 6:00 da tarde.

Se, sabendo disso, mesmo assim o ciclista resolvesse se inscrever, não desistisse na largada e passasse dos 100 km, será que ele iria desistir?

Posso estar enganado, mas penso que voltar 100 km, sozinho, no frio, na chuva e não completar o desafio, não seria mais atraente e seguro que fazer mais 200 acompanhado dos colegas e chegar ao final da prova.

Ou seja, quando a situação é extrema, a maioria das pessoas se surpreende com o que é capaz de fazer.

É bem possível que alguns dos que largaram a prova chegassem a hipotermia se continuassem. Ou sucumbissem a hipoclicemia, a câimbra, ao sono, ao cansaço (como se escreve essa palavra? :-p), pegassem uma pneumonia, escorregassem e caíssem, fossem atropelados, atacados por cachorros, abduzidos por ET's, sei lá.

Tudo poderia ter acontecido, inclusive ter concluído a prova.

Todos nos deveríamos saber quando parar. Mas será que realmente sabemos?
Será que paramos porque chegamos ao nosso limite físico, ou ao nosso limite psicológico apenas? Ou por algum outro motivo menos premente?

Alguém realmente acredita que teria morrido de frio se continuasse?
(5s para pensar...)

Continuando...
Então por que parou? Certamente não foi para não morrer...

O ser humano (com letras minúsculas, realmente... :-( ) não é nada tão grande assim. Somos animais. Ponto. Queremos três coisas:

1. sobreviver;
2. sobreviver confortavelmente;
3. sobreviver confortavelmente e, se der, atingir alguns objetivos.

Estritamente nessa ordem.

Completar o Audax é legal. Mas por que passar frio? Esta todo mundo desistindo mesmo... quem se importa? ISSO MUDA MINHA VIDA EM ALGUMA COISA?

Nada muda nossas vidas se não dermos o devido valor ao que estamos fazendo.

A consciência que o sofrimento, por mais terrível que possa parecer, é passageiro, e que, uma vez terminado, será uma mera lembrança, permite-nos superar QUALQUER limite.

Ninguém faz um Audax na chuva e no frio porque é masoquista. Essa é a explicação dos medíocres, para se justificarem aos outros e a sua própria consciência.

Enfrentamos esses 300 km até o fim, porque sabemos que a dificuldade, mesmo assustadora no momento, tinha data e hora marcadas para acabar: 20h do dia 20 de maio de 2006. Isso significa que cada minuto a mais de sofrimento, é, paradoxalmente, um minuto a menos de sofrimento. E isso nos dá alento, nos dá esperança (que deveria ser a ultima que morre, mas essa época já passou...)

Muitos atingiram seus limites físicos e psicológicos nessa prova. A eles, mesmo sem terem concluído o brevet, nossa admiração.

Outros atingiram o limite físico OU psicológico, mas não ambos. Também são dignos de todo o respeito.

Mas alguns talvez apenas não tenham conseguido desgrudar da fogueira... Nunca saberemos quem foi quem, se é que houve alguém. Nem ao menos é da nossa conta. Mas cada um de nos sabe onde se encaixa. E isso é suficiente. Ninguém deve NADA a ninguém antes, durante ou depois de um Audax.

Repito: Audax é desafio pessoal. E digo mais: DESAFIO, não piquenique. E essa prova FOI REALMENTE um desafio. Eu fiquei com medo quando aquela mãe sugeriu que se cancelasse a prova. Nós merecíamos essa chance. Não seria uma chuvinha miserável de inverno ;-) que nos tiraria ela.

É muito fácil dizer que o PC estava uma bosta. Que a banana estava verde. Que não tinha isotônico. Que não tinha camiseta. Que a enfermeira não era gostosa. Que a chuva estava molhada. Que o vento estava frio. Que Deus não me ama. Que eu não tenho dinheiro. Que a estrada estava escorregadia, esburacada e cheia de cachorros raivosos e motoristas sedentos por sangue ciclístico.

Difícil é assumir que eu estou lá porque eu quero, porque eu me propus a vencer um desafio e que ou eu enfrento isso tudo ou é melhor ficar em casa dormindo ate o meio dia e passar à tarde do sábado chuvoso ao pé da lareira comendo pipoca e assistindo aos programas imbecis da televisão. E a noite ir assistir ao Código Da Vinci, para ter mais alguém a quem criticar. Para isso TUDO não é preciso NADA de especial.

Especial foi participar do Audax 300 do dia 20 de maio de 2006. Um Audax que, como o meu grande cunhado laconicamente caracterizou, foi completado primeiro na cabeça, depois no asfalto.

1 comentários:

3 de abr de 2007 12:52:00
Anônimo disse...

Tive a felicidade de estar presente nessa prova de 300 Km...digo felicidade porque são raras as oportuniades como essa de vermos do que somos feitos realmente, em uma prova de fogo(ou seria melhor de gelo ?!) como foi aquele Audax RS 300.

Pedalei com minha esposa durante os primeiros 100 Km, e ela foi uma guerreira.Me recordo especialmente de um momento, em que um caminhão na pista contrária nos cegou completamente, e ela foi desviando para o acostamento, que tinha um grande desnível. Tentei avisar, mas já era tarde...estávamos em uma descida, a pelo menos 35 Km/h. Ela entrou com tudo, a bike parecia um cavalo chucro, pensei que ela fosse cair, mas não caiu...ali tive certeza que completaríamos a prova, mesmo naquelas condições brutalmente adversas.
Infelizmente, ao chegar no PC2, ela começou a dar sinais graves de hipotermia e teve que abandonar a prova.
Recentemente, lembrava com uns amigos a cena de guerra que presenciei ao chegar nesse PC: o pessoal em volta do fogo, a fadiga extrema no rosto de cada um, a disputa por um lugar próximo à fogueira para se esquentar minimamente.
Interessante que em nenhum momento me deixei seduzir por aquela fogueirinha. Tinha uma roupa seca guardada, tirei minha camisa ensopada sob olhares atônitos, mandei um café quente pra dentro e rumei ao PC3...
Foi triste fazer os outros 200 km sem a Andréia, mas ao mesmo tempo isso me deu forças para continuar, para que o nosso sacrifício dos primeiros 100 Km não tivessem sido em vão. Os últimos quilômetros foram sofridos (aquela reta da chegada da cidade é de matar), mas nada se compara com a sensação de dever cumprido ao cruzar a linha de chegada. Quando me lembro daquele dia, me recordo do frio, das dores e do cansaço durante a prova, e das assaduras depois dela, mas princialmente do sentimento de superação e vitória de passar pelo portal. Acho que é isso que me leva a continuar a fazer esse tipo de prova, no final das contas.
Fico feliz de ter sido um dos 140 felizardos inscritos, e mais ainda, um dos "sobreviventes". Essa será certamente uma ótima história para se contar aos filhos e netos...

Um forte abraço a todos

Andre Alves (itapuca@hotmail.com)
Curitiba-PR

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